terça-feira, 4 de dezembro de 2007

KIMBER MANNING

Os Estados Unidos são o paraíso e o inferno dos músicos e artistas da música.
Qualquer músico quer estar em um lugar que tem as melhores escolas de música do mundo, o maior mercado, a maior platéia, muito dinheiro, muita gente disposta a produzir, etc. etc...
Mas o inferno é que tem gente boa pra caramba, aos montes.
Dando uma fuçadinha rápida no MySpace, encontrei um monte, mas um monte de gente boa, de quem nunca ouvi falar.
Só uma amostrinha: olhem a qualidade dessa moça: Kimber Manning.
Já ouviram falar?




terça-feira, 20 de novembro de 2007

FAZENDO A MINHA PARTE

Como podem ver, está meio difícil escrever aqui. Falta tempo. Faltam palavras. Mas principalmente, falta energia. Às vezes, sou tomado por um sentimento de prostração da alma. É uma fadiga interior tão intensa que me impede até de ler. Ou escrever.
Bem, isso é assunto para uma outra ocasião. O que me fez vencer esse tremendo cansaço e me arrastar até aqui, foi um e-mail que recebi da Riot, uma empresa de marketing viral, que está usando seu conhecimento para ajudar a divulgação do trabalho da WWF-Brasil e da campanha que a ONG está veiculando, sobre os efeitos da devastação ambiental.
Segundo o texto do e-mail, este espaço foi selecionado através de uma pesquisa da Riot, para receber esta mensagem. Pede apenas que eu ajude a divulgar a campanha e o trabalho da WWF.
O engraçado é que a pesquisa deles chegou até aqui, provavelmente por causa de dois artigos que publiquei sobre o tema: um em fevereiro e outro em junho. Nos dois, motivados justamente por pedidos de divulgação de temas sobre consciência ecológica, construo textos amargos e irônicos - quase sarcásticos - sobre a minha descrença na capacidade destas iniciativas surtirem algum efeito. Falo ali, da nossa incompetência em tomar atitudes coletivas suficientemente poderosas para mudar o rumo do desastre final que se anuncia. Na verdade, é uma espécie de desabafo. Um grito de raiva pela burrice da Humanidade, que vê a água chegando ao seu pescoço e não é capaz de fazer alguma coisa de concreto pra mudar a situação.
A WWF arrecada recursos através de mensalidades, afiliações, doações, parcerias corporativas e do licenciamento da marca. É muita gente trabalhando de graça. A campanha - totalmente realizada por trabalho voluntário - foi criada pela DM9, de Nizan Guanaes. Ninguém recebeu um centavo: produtores, criadores, animadores, redatores, ninguém. Nem os direitos de uso da trilha - "Money, Money", do filme Cabaret - foram pagos: a Warner e a Universal os cederam.
Bem, por mais que meu ceticismo reaja, argumentando que sempre há um interesse por trás desses atos - como, por exemplo, lustrar a imagem pública das empresas colaboradoras, associando sua marca a um trabalho social - o grande burro seria eu, se não reconhecesse que isso é a tal "atitude coletiva" da qual tanto duvido.
E, mais do que burro, eu seria um canalha se não me unisse a essas pessoas e tomasse uma atitude. Uma atitude coletiva.
Como disse, estou fazendo a minha parte. E continuo rezando. Mas, dessa vez, um pouco menos cético.
Assistam o filme da DM9, com o som ligado. Vale a pena.
E, se puderem, divulguem.


sábado, 18 de agosto de 2007

A ESPERANÇA É A ÚLTIMA QUE MORRE. A CRIANÇA É A PRIMEIRA.

A Globo fez mais um programa CRIANÇA ESPERANÇA.
Meu já notório ceticismo, viu aquela festa demagógica como uma espécie de "bolsa-família corporativa". O correspondente privado, do plano assistencialista-paternalista estatal do PT, que levou Luis Ignácio ao segundo mandato, a despeito de ter perdido totalmente o apoio da classe média, em virtude dos descalabros éticos cometidos por seus "quarenta" asseclas.
Qualquer "duda mendonça" de terceira linha sabe que vincular o nome de uma corporação (ou de um candidato) a obras de alcance social, faz um bem danado à imagem da empresa (ou do candidato). Assim, Globo e os demais patrocinadores do evento, com a chancela da UNESCO, ganham uma tremenda exposição e dão um baita polimento ao seu conceito público. Sem contar o lucro rachado com as operadoras de telefonia, que cobram R$0,27 do telefone fixo e R$0,50 do celular, "plus tax", por telefonema doador.
Quem pode ser contra uma iniciativa tão humanitária, com tanto alcance social? Quem não se comove frente às imagens das crianças pobres do terceiro mundo, jogadas nos lixões contaminados, morrendo de fome e doenças? Respondo: EU sou contra! EU NÃO me comovo!
Por total preguiça e falta de opção, fiquei assistindo o showzinho chatíssimo, com as atrações de sempre. Em determinado momento o indefectível Didi Mocó - considerado um embaixador da UNESCO para esse evento - entra em cena e declara, orgulhoso, que aquela é a 22ª. versão do CRIANÇA ESPERANÇA (!!!).
Quando ouvi isso, um sininho tocou dentro de mim. Fiquei pensando que há 22 anos o poderio da Globo e a influência popular dos artistas e celebridades que dão o seu aval, consegue arrecadar bilhões de reais para ser aplicados em projetos de recuperação social de crianças brasileiras.
Significa que, há 22 anos, essa "maravilhosa iniciativa" não adiantou nada. Em cada um destes 22 anos, sempre houve a necessidade de repetir a campanha no ano seguinte, porque o número de pobres, famintos, doentes, ignorantes, excluídos do terceiro mundo não parou de crescer exponencialmente. E isto vai se repetir nos próximos 22 anos; e depois nos próximos; e nos próximos.
Sempre vi a prática de doações, como uma ação paternalista, inócua e mal intencionada. Enquanto se faz caridade, enquanto se doa, joga-se uma nuvem de fumaça sobre as reais causas da pobreza e da exclusão; e distrai-se o olhar da ausência de verdadeira política social, que ocorre há séculos (precisamente, há cinco séculos), " nefte paíf ", como diria Luis Ignacio.
A questão é a seguinte: estes desvalidos, são cidadãos, embora nem saibam disso e nem o que é isso. Eles têm direito de ter uma vida digna, usando seus próprios recursos. Compete à sociedade organizada, sob que forma for e em qualquer nível (municipal, estadual, nacional ou mundial), prover condições para que todos, TODOS, tenham condição de não precisar de doações do CRIANÇA ESPERANÇA ou de depender do BOLSA-FAMÍLIA, para sobreviver.

O fato de existirem iniciativas desse gênero, por si só, já denuncia nosso fracasso como sociedade organizada minimamente digna.
Quando tomou posse, Luis Ignacio levou todos os seus ministros para um "POBRE- TUR". Foram todos passear, de ônibus fretado e barcos com amplas janelas para que pudessem "ver" como são pobres as regiões mais pobres do país. DEMAGOGOS, VIS! Que tipo de política de inclusão social ou de recuperação da cidadania daqueles miseráveis, nasceu dessa iniciativa ridícula? NENHUMA! Ou melhor, uma: o Bolsa-Família. Programa que serviu apenas para dar a Luis Ignacio o segundo mandato.
É claro que os miseráveis votam em alguém que lhes dê um salário mínimo ou uma cesta-básica qualquer. Eles não têm nada! Nem a consciência de saber que têm direito a muito mais do que isso. E votam no Messias que os salvará da morte imediata pela fome. Ao contrário, morrerão de uma morte lenta, pela miséria crônica, que fatalmente os levará depois de terem vivido uma vida curta, sem nenhuma qualidade a não ser o fubá da bolsa-família e o sinal via satélite da Globo, levando o FANTÁSTICO para distraí-los todo final de semana e o show do CRIANÇA ESPERANÇA - uma vez por ano, todos os anos, eternidade afora - para poderem cantar com a "galera": POEIRA! POEIRA! ILÁRILARILARIÊ! Ô! Ô! Ô!
Enquanto isso, a ponta oposta da pirâmide triplica seus rendimentos, sonega impostos, faz contrabando de divisas para o exterior, estaciona suas Ferraris, Mercedes e BMWs em fila dupla, interrompendo o trânsito da Rua Haddock Lobo, para ir comer no Rodeio ou no Fasano, financia campanhas eleitorais com o caixa-dois, que os políticos beneficiados chamam de "recursos não contabilizados", compram roupas e acessórios importados nas "daslus", a preços imorais, publica balancetes bancários com lucros pornográficos..., ..., ...

Esperança, criança? Que esperança!!!!

terça-feira, 31 de julho de 2007

CELEBRAR...SE LEMBRAR...

Dia 24, este espaço completou um ano de existência. Esqueci... Minha mãe dizia que a gente só esquece do que não interessa. Penso que ela tinha (tem) razão.
Mas não é ao blog que não dou importância. Não dou importância à data. Ou à comemoração da data. Tenho uma tendência a esquecer aniversários e datas comemorativas. Inclusive as minhas e de meus chegados. Até hoje não tenho uma explicação razoável para isso. Mesmo pequeno, não gostava muito do dia do meu aniversário. Ficava num estado de tensão e desconforto. E não gostava da festa. Como não gosto hoje.
Pra dizer a verdade, a única festa de aniversário que curti muito foi quando completei cinqüenta anos. Os emblemáticos cinqüenta anos. Essa foi muito diferente porquê minha mulher preparou uma festa-surpresa. Convidou um grupo pequeno de amigos e conseguiu manter tudo em segredo. Armou uma arapuca pra mim em minha própria casa e, inteligentemente, usou minha própria ojeriza a festas em geral, como isca. Disse que precisava ir a uma festa de aniversário de uma amiga e que gostaria muito que eu fosse com ela. Arriscou, porque eu poderia concordar. Mas ela sabia da minha má vontade. Respondi que, se fosse absolutamente necessário eu iria, mas que preferia não ir, "porque ela não ia com alguém", etc.. etc... Pronto! Isca engolida...
Na hora da festa todos se vestiram e saíram de casa. Eu, feliz da vida, vesti minha camiseta mais velha, rasgada e manchada, e o moleton mais ridículo, pra ficar gostosamente em casa, não fazendo nada, vendo TV, bundando...
Quando estava na mais absoluta paz, deitado no sofá, vendo um filme babaca qualquer, toca o interfone. Já levantei mal humorado. O porteiro avisava que o síndico precisava falar comigo e me aguardava no térreo. Pensei comigo: "Que porra esse cara pode querer comigo num sábado às dez da noite?". Vesti um ridículo chinelo e desci de cara amarrada e amarrotada. Tudo estava escuro no térreo. Fui até a guarita e perguntei ao porteiro onde estava o síndico. Ele respondeu que estava me esperando perto da churrasqueira, atrás do salão de festas. Pensei em algum problema de infiltração repentina ou uma emergência elétrica qualquer que pudesse por em risco o prédio, pra justificar aquele chamado tão inoportuno. Quando passei pela porta do salão - todo apagado - ouvi alguém chamando meu nome. Achei estranho, mas fui chegando até a porta devagarinho... O desfecho é óbvio: luzes se acendem repentinamente e uma multidão de caras conhecidas - totalmente inesperadas - canta o mais estrondoso e barulhento "Parabéns a Você" que eu já ouvira. Fiquei parado, completamente sem ação, sem saber o que sentir nem o que pensar. Num ambiente todo decorado com muito bom gosto, literalmente cercado de gente vestida e enfeitada para a ocasião, na minha própria festa, lá estava eu, ridiculamente vestido, usando uma roupa com que, certamente, não receberia nem minha própria mãe. Foi o melhor choque que levei em toda a minha vida. E ficou uma lembrança muito gostosa desse momento.
Mas isso foi especial. Continuei e continuo não dando a menor importância para essa contagem de tempo. Os ciclos internos - aqueles que realmente marcam as mudanças essenciais da vida - não são medidos em tempo, segundo uma unidade de medida física. O tempo interno é outro. E é esse que vale. Cada um tem o seu e, na maioria das vezes, nosso tempo não está em harmonia com o tempo dos outros. Às vezes, nosso tempo de falar não é o tempo de ouvir do outro. Nosso tempo de calar acontece justamente quando alguém precisa da nossa palavra. E assim, vamos esbarrando nas desarmonias...
Contudo, tive uma lembrança atrasada, mas espontânea desta data. Achei, então, que devia registrar o evento. Menos por mim do que por alguns bons amigos que fiz, justamente por causa deste espaço. Estes encontros, sim, merecem ser comemorados. Todos os dias. Todas as horas. A qualquer tempo.
Há gente que detesta a internet. Hoje mesmo, li que Elton John pediu a extinção da internet (leia aqui). Diz ele que "a internet fez com que as pessoas deixem de se comunicar e se encontrar" (sic). Na verdade, Elton John está preocupado com a vendagem de seus discos, que despencou - como de outros artistas - por causa da troca de arquivos na rede. Ok, isso é assunto a ser discutido. Agora, acabar com a internet por causa disso é o mesmo que acabar com a aviação porquê houve um terrível acidente ou porquê, nas guerras, os aviões são utilizados para fazer bombardeios e matar gente. Ora, não é a aviação que está errada. É o uso que as pessoas fazem dela.
Minha experiência com a internet é de total encontro. O argumento que Elton John usa é pueril e falso. Ele mesmo admite ser um "tecnófobo". Aliás, conheço vários assim. Como alguém, que detesta tecnologia, computadores e internet, pode opinar sobre o que não experimenta?
Conheci gente com quem tive a maior afinidade, por aqui. Outras, nem tanto. E outras, ainda, nenhuma. Assim como na vida real. Me aproximei cada vez mais de quem me senti afim. Me afastei de quem não gostei. Como na vida real. Às vezes, fico um tempão sem fazer contato com gente de quem gosto muito. Como na vida real. Às vezes, alguém me enche o saco na rede. Como na vida real.
As pessoas de quem me aproximei e com quem fiz laços de amizade calorosa e carinhosa - embora não as conheça pessoalmente e nem saiba de seus lados fracos e escuros, assim como ocorre na vida real - essas pessoas fazem valer muito a pena suportar os personagens peversos com quem me deparo eventualmente no mundo virtual. Assim como ocorre no mundo real.
Como disse, é por estas pessoas - pelos amigos e amigas que me visitaram; os que deixaram de presente suas palavras; os que vieram se "encontrar" comigo aqui, como se viessem à minha casa; os que vieram, leram e foram embora sem nada comentar; os que reclamaram quando demorei pra aparecer; os que se preocuparam, quando me perceberam triste; os que sorriram de volta, quando eu sorri pra eles através da minha palavra escrita; os que me receberam com carinho e hospitalidade em seus sítios; os que foram cúmplices, mesmo não concordando e os que discordaram sem perder a ternura (parafraseando um famoso guerrilheiro) - é por eles e elas que eu registro esta data. E é nelas e neles que penso, quando lembro que, há um ano, tomei posse deste espaço.
Quando publiquei meu primeiro artigo, em 24 de julho de 2006, perguntei a mim mesmo: "Quem será que vai ler isso? Que interesse alguém pode ter por isso?" Há um ano deixo aqui alguns fragmentos de mim mesmo. Hoje, sei a resposta àquelas perguntas. Esses e essas que vêm aqui, têm interesse por mim. Isso é o que pessoas afins sentem umas pelas outras: interesse, no sentido mais elevado da palavra. Interesse que significa atenção, carinho e aquela maravilhosa sensação de ver-se no outro. O que nos torna cúmplices e unos. O que nos ampara, nos acolhe e nos aquece, em meio ao inevitável frio da solidão humana.


A estes amigos e amigas dedico esta data.

segunda-feira, 7 de maio de 2007

"RAT RACE"

O ato de escrever, exige a prática do que o sociólogo italiano Domenico de Masi, chamou de "ócio criativo": aquele estado contemplativo, em que nos colocamos disponíveis para o livre fluxo das idéias e para o emergir das energias criativas do espírito e da mente.
Ao contrário do que exige a era pós-industrial, calcada no binômio produção-consumo, uma sociedade baseada nos princípios de Domenico de Masi seria uma sociedade muito menos voltada para o consumo. E, assim, muito mais criativa e feliz.
Isso não interessa de jeito nenhum às forças econômicas. Todos somos condicionados a trabalhar, trabalhar, trabalhar para poder consumir, consumir, consumir. É como aquelas corridas de cães, em que se coloca à vista dos pobres animais, uma presa mecânica que anda a uma velocidade bem superior à deles, fazendo com que corram o máximo que podem, sem nunca conseguir alcançá-la. Em inglês, chama-se a isso de "rat race", corrida de ratos, em alusão ao ratinho de laboratório que fica correndo sobre a roda, fazendo um esforço extremo e inútil para fugir.
Todos estamos condicionados, como galgos de corrida, a ir, compulsivamente, atrás das "presas" que, segundo o mercado, nos farão felizes. Nossa imbecilidade permite que nos vendam esta idéia. Criam-nos necessidades que nunca tivemos, mas que passamos a desejar como se fossem imprescindíveis para nossa vida. Conseguem atribuir símbolos tão fortes a esses "gadgets", que fazem com que milhares de babacas gastem milhares de dinheiros para ter qualquer coisa que lhes façam sentir-se: poderosas, lindos, inteligentes, potentes, gostosas, irresistíveis, respeitadas e tudo aquilo que não são. A coisa é tão bem bolada, que, no mesmo momento em que logram adquirir um destes símbolos - que pode ser uma Ferrari, para alguns, ou um somzinho três-em-um, comprado no crediário das Casas Bahia, para outros - aquele objeto perde o poder mágico que até então lhe fora conferido e, imediatamente, outro objeto de desejo lhe ocupa o lugar. Nós, os cães, continuamos a correr atrás da lebre mecânica. Nós, os ratos, continuamos a girar a rodinha.
Fugi do assunto inicial. A indignação me foi levando, como um vento lateral. Só queria dizer que, sem o tal ócio, fica difícil escrever. Sinto-me vazio, porquê as energias da criação estão sufocadas. Estou ocupado em perseguir minha lebre mecânica e não pude parar um só instante, para abrir os canais da criação e os caminhos da reflexão.
Essa corrida interminável levou-me a participar de um congresso na Ilha de Santa Catarina, um lugar que, se não é o paraíso, deve ser sua entrada. Não vou falar nada desse lugar. Cliquem na figura, ao final do texto para ver um álbum com uma pequena amostra do que lá vi.
O irônico é que, só pude ver e fotografar, mesmo. Assim, de longe. Noventa por cento do tempo, fiquei encerrado em um auditório com as luzes apagadas, assistindo projeções e apresentações feitas em PowerPoint, em companhia de umas mil e duzentas pessoas. Quando saía da sala, em algum intervalo (chamado aqui no Brasil de "cofee-break", em nosso dialeto oficial), o sol me cegava de tanto esplendor e o azul do céu caía sobre minha cabeça com um grande estrondo. Ao final da última palestra de cada dia, já encontrava a noite estrelada, tão estrelada quanto uma noite de Van Gogh. Mas, não dava tempo pra ficar olhando. Era necessário voltar à corrida.
O cômico - ou o dramático - é que, toda essa corrida serve pra eu poder um dia ficar olhando o horizonte, horas a fio, como faz o surfista aí da foto, esperando a melhor onda; ou poder ter tempo de deitar na rede da varanda - que havia no hotel, mas que não usei - para ficar olhando aqueles zilhões de estrelas e inspirando lentamente a fresca brisa do mar.
Agora, se vocês me dão licença, preciso continuar minha corrida...




COSTÃO

sábado, 7 de abril de 2007

QUE TRAZES PRA MIM?

Dizem que elefantes têm memória de elefante.
Pode ser. Mas crianças têm memória muito melhor.
Crianças jamais esquecem. Mesmo quando viram adultas.
Minha criança interna lembra-se de tudo o que lhe aconteceu. De bom e de mal.
Minha criança lembra-se perfeitamente de uma Páscoa que passou no Rio de Janeiro. Na quinta-feira santa, minha criança deitou no imenso banco de trás de um Mercury 57, azul-bebê, conversível, com capota de lona preta e acordou seis horas depois, na Av. Brasil, em direção à praia.
Naquele tempo era possível andar pela Av. Brasil, sem levar tiro da polícia ou dos bandidos. O maior risco para um paulista, era a velocidade com que os cariocas dirigiam, costurando pela esquerda e pela direita, enquanto a gente tentava adivinhar qual alça de viaduto pegar para ir em direção à orla. Minha criança ficava assustada, vendo seu pai, o super-herói, atônito e perdido, enquanto a mãe invocava: "Meu São José! Minha Nossa Senhora!".
Porém, vencido esse obstáculo, uns vinte quilômetros depois, minha criança arregalava os olhos e deixava o queixo cair, a boca entreaberta, quando o carro chegava, sem aviso, na enseada de Botafogo e a paisagem explodia de tanta beleza. A mãe gritava: "Olha o mar, filho!". A criança, muda de deslumbramento, não respondia. A mãe, achando que era desinteresse, insistia: "Você está perdendo. Olha que bonito." A criança nunca tinha visto nada tão bonito. Aquele silêncio era um grito de emoção. Ela só achava esquisito aquele nó na garganta, aquela vontade de chorar. Por quê essa vontade de chorar, se ela estava tão feliz, mas tão feliz, de ver aquilo tudo, tão lindo?
Depois, a chegada no apartamento da tia e ver o mar lá de cima e um morro esquisito, pontudo. Explicaram que se chamava Pão de Açúcar. A criança associou o nome ao formato de uma baguete, mas não entendeu porquê era de açúcar. Será que era por causa da Páscoa?
Os primos tinham dois cachorros e um bicho que andava pela casa toda, parecendo um rato, só que era todo malhado de branco, marrom e preto e não tinha rabo. De vez em quando, parava no meio do caminho, levantava a cabecinha e guinchava: "Cuiimmm, cuuiiimmmm, cuimmmm..." A prima pegava o bichinho no colo e coçava a parte de baixo da cabecinha. O bichinho ia levantando o pescoço, lento, seus olhinhos ficavam semi-cerrados e ele ficava paradinho, quietinho, morrendo de prazer. O bichinho não era ele, era ela e tinha o nome de Gina. Minha criança ficou tão encantada por ela, que a tia lhe deu o porquinho-da-índia. Por mais que os pais protestassem, não houve meio de fazê-la desistir de levar o bicho.
Na sexta feira da Paixão, depois de cumprir o sacrifício de comer bacalhau com batatas e brócolis, minha criança estava ansiosíssima por um pedaço de ovo de chocolate. Não era o domingo ainda, mas o maior desejo da Páscoa já estava disponível. Fartou-se e foi dormir. Acordou vomitando o que tinha comido e mais um pouco. Pra piorar, febre e diarréia. Desidratação pode ser uma coisa bem perigosa em crianças.
Naquele tempo, não havia seguro-saúde. Chamava-se o médico em casa. Minha criança, esgotada, sonolenta, febril, tristonha e meio amarelinha, foi despertada por um senhor trazendo uma malinha marrom ovalada, de onde tirou um objeto esquisito, com uns tubos de borracha que ele enfiou nos seus próprios ouvidos e uma espécie de pirulito gelado que colocou no peito e nas costas do garoto, aumentando o frio que já o fazia tremer.
Minha criança não entendeu nada do que o homem do pirulito gelado falava, mas guardou duas palavras: "alergia" e "chocolate". "Acho que ele errou", pensou. "Ele quis dizer 'alegria'. Se tá falando de chocolate, só pode ser alegria." Mas, então, ouviu um final de frase, meio longe. Já de costas, saindo pela porta do quarto, o doutor dizia: "...não pode mais comer chocolate...".
Em plena Páscoa, o médico decretou que chocolate era proibido. Não sei o que doeu mais: a injeção, com seringa de vidro e agulha grossa fervida, ou a perspectiva da privação eterna da guloseima, como a danação de uma alma no terceiro círculo do inferno, reservado aos que cometeram o pecado da gula.
O fato é que minha criança nunca mais comeu chocolate. A Páscoa passou a ser uma data execrada, na qual ficava condenada a ver todas as outras abrirem seus ovos, com o ruído dos papéis laminados misturados aos gritos de alegria, e lambuzar-se - os dedos, as mãos, as bocas - de pasta marrom, com aquele perfume de cacau suspenso no ar.
Para não ser tão discriminada, minha criança ganhava, todos os anos, um lindo ovo de açúcar-cande, todo decorado com confeitos e marzipan. Era mesmo lindo. Mas, só isso: lindo. Não servia pra mais nada. O mais difícil era - ano após ano - receber a embalagem toda enfeitada, junto com as outras crianças e abri-la, sabendo o que iria encontrar dentro: todos os anos o mesmo ovo de açúcar-cande; sem nenhum chocolate. Logo que as embalagens eram abertas, esse ovo fazia algum sucesso; era diferente. Todos vinham admirar."Olha, que bonito!" "Puxa, que bacana". Mas logo voltavam aos seus ovos de chocolate para devorá-los. A minha criança se afastava e ia guardar o seu lindo ovo de açúcar-cande, decorado com confeitos e marzipan.
Anos depois, muitos anos depois, vim a constatar que nunca tivera nenhum tipo de alergia ou intolerância ao chocolate. O caro doutor errara seu diagnóstico. Aquilo era apenas uma intoxicação alimentar. Não tinha nada a ver com o chocolate. Mas, então, já era tarde. Minha criança interior nunca mais esqueceu das Páscoas que passou.
E sempre que fui ao Rio, fiquei novamente de boca aberta, encantado com a paisagem deslumbrante. Não deve existir cidade mais linda no mundo. Mas, todas as vezes em que lá voltei, minha criança interior ficou quieta e parou de sorrir.
Até se lembrar de que foi lá que ganhou uma amiguinha que guinchava pedindo cafuné no queixo. Uma amiguinha chamada Gina, que quase a fez esquecer do chocolate naquela Páscoa.

sábado, 31 de março de 2007

HARMONIAS DIVINAS

Um dos instrumentos mais lindos que conheço é a voz humana.
O canto - a melodia executada pela vibração das cordas vocais - é alguma coisa de divino.
E dentro das modalidades de canto, a execução à "capella", sem acompanhamento instrumental, é uma das coisas mais tocantes e emotivas que se pode ouvir.
Sabendo disso, desse efeito explosivo na emoção, a Igreja desde sempre utilizou o canto como forma de propagar a palavra de Deus.
Na Idade Média, as primeiras formas de canto litúrgico foram baseadas no canto grego e, por volta do século IX, surgiu o canto gregoriano, assim chamado por ser atribuído ao Papa Gregório, que o teria incorporado definitivamente à liturgia.
O canto gregoriano caracteriza-se por ser entoado em uníssono, isto é, uma monofonia. Todo o coro emite a mesma nota da melodia, na mesma altura, sem nenhum intervalo. Isso se prestava muito para a veiculação dos recitativos e orações. Dessa forma, a palavra era o elemento mais importante da canção.
Durante muito tempo, a Igreja - poderosíssima na época - legislando sobre tudo, proibiu a polifonia. A harmonia gerada pela polifonia - emissão de duas ou mais notas com intervalos de terças, quartas ou quintas, era considerada frívola, herege e lasciva. Um obstáculo à compreensão da palavra de Deus veiculada de forma monótona pelo canto gregoriano monofônico.
Felizmente, Deus era mais sensível e inteligente do que a Igreja e mandou a Renascença. Com ela, a polifonia ganhou espaço a tal ponto, que a própria Igreja resolveu aderir à nova moda, já que os fiéis preferiam muito mais a música polifônica, já totalmente ambientada nas canções profanas.
O encontro de notas formando acordes, especialmente quando emitidas pela voz humana, é capaz de levar nossa alma a estados de verdadeira elevação, independente do caráter sacro ou profano do canto.
Tenho verdadeira adoração por harmonia vocal. Penso que é um dos trabalhos mais lindos e difíceis que se pode fazer em música.
Existem, hoje, muitos conjuntos e grupos especialistas nesse tipo de trabalho. Pra ficar apenas nos contemporâneos, cito o Take 6 e o Manhattan Transfer. No Brasil, tivemos há algum tempo, o Quarteto em Cy e o MPB4. São muitos mesmo.
Porém, existem dois grupos cujo trabalho acho pouco conhecido aqui no Brasil, embora um deles seja brasileiríssimo.
O primeiro é um conjunto italiano chamado NERI PER CASO. Tem um trabalho precioso e original que soma harmonia vocal com percussão bucal e corporal. O resultado é absolutamente criativo e cheio de personalidade. O baixo funciona como o verdadeiro instrumento e, em alguns momentos, é difícil acreditar que sejam apenas vozes o que ouvimos ali.
Deixo aqui dois exemplos do virtuosismo desse pessoal. A primeira canção chama-se CENTRO DI GRAVITA PERMANENTE e a segunda é a versão mais saborosa que já ouvi de WHITE CHRISTMAS, que considero a mais linda canção popular americana sobre o tema. Clique nos links e ouça. Vale muito a pena.
O outro grupo tem uma história interessante. É o brasileiro TRIO ESPERANÇA, que nos tempos da Jovem Guarda, cantava bobagens infantis como a "Festa do Bolinha" e a ridícula "Filme Triste". Quem tem menos de quarenta e cinco anos e não conhece essas músicas não deve procurar conhecer, nem por curiosidade. Acontece que, após o fim do grupo, sua cantora mais talentosa , Evinha, fez uma carreira solo de relativo sucesso cantando uma linda canção de Antonio Adolfo e Tibério Gaspar, chamada TELETEMA, além da delicada CASACO MARROM. Porém, Evinha estourou mesmo defendendo a maravilhosa CANTIGA POR LUCIANA, de Paulinho Tapajós e Edmundo Souto, que ganhou o 1º lugar no IV FESTIVAL INTERNACIONAL DA CANÇÃO, em 1969.
Evinha partiu para uma carreira internacional e acabou se casando com o pianista da orquestra de Paul Mauriat - com quem excursionou pela Europa e Japão - e fixou residência na França. Ficou muitos anos sem cantar, mas um dia resolveu reviver o Trio Esperança. Chamou duas de suas irmãs, Marisa e Regina, e gravou dois Cds à capella. É um trabalho de harmonização vocal fantástico, com arranjos sofisticadíssimos e dificílimos. Não teve muita repercussão no Brasil, mas parece ter feito mais sucesso na França. A amostra é a jobiniana ÁGUAS DE MARÇO. Sem comentários.
Pra terminar, a segunda música do Trio Esperança que deixo aqui, é um presente para um lindo casal de amigos. Ela, como a Evinha, é brasileira e, também como a Evinha, casou-se com um francês. Chama-se Gabi e é a autora do lindo blog Quase Vida. Ele é o Gaël, grande fotógrafo, como vocês podem conferir, clicando aqui. Ambos estão ansiosamente esperando a pequena Flora, que deve nascer em breve. Chama-se LA LUNE EST MORTE - uma canção infantil, cantada em francês, por brasileiras. Penso que a Flora vai gostar de ouvir. Também estou ansioso pra saber. Gabi e Gaël, depois me digam se acertei.

Ouvindo essas quatro canções à capella, com essas harmonias vocais, fico pensando como a Igreja pôde, por tanto tempo, considerar a polifonia coisa do demo...
Era a Idade das Trevas, mesmo.

sábado, 17 de março de 2007

NÃO TENHO PALAVRAS...

Ando sem palavras.
Dizem que "uma imagem vale por mil palavras".
Acho discutível e já vou dizendo que não concordo. É bom tema para um próximo texto, quando as palavras voltarem.
Como não as tenho (as palavras) no momento, deixo três imagens para vocês.
Pra quem acredita na frase, isso deve valer por três mil palavras.
Quem não acredita, fique com as imagens.

As fotos abaixo não foram feitas em nenhuma praia paradisíaca do Hawaii, nem em uma ilha caribenha, nem mesmo no litoral sul da Bahia. Nem, tampouco, no maravilhoso litoral norte de São Paulo.

Esses lugares badalados e cantados em prosa e verso, merecem sua fama. São mesmo lindos.


C
ontudo, a Natureza é generosa. Distribuiu seus tesouros por todos os lugares.
Essa prainha esquecida e sem nenhuma fama, nenhum glamour, sem badalação e sem prestígio nenhum pode também, ser bonita.


A Natureza faz a sua parte.
O resto depende do olhar de quem vê
.




















* Clique nas fotos para ampliar. Se quiser copia-las, por favor cite a fonte e o autor. Obrigado.