sábado, 7 de abril de 2007

QUE TRAZES PRA MIM?

Dizem que elefantes têm memória de elefante.
Pode ser. Mas crianças têm memória muito melhor.
Crianças jamais esquecem. Mesmo quando viram adultas.
Minha criança interna lembra-se de tudo o que lhe aconteceu. De bom e de mal.
Minha criança lembra-se perfeitamente de uma Páscoa que passou no Rio de Janeiro. Na quinta-feira santa, minha criança deitou no imenso banco de trás de um Mercury 57, azul-bebê, conversível, com capota de lona preta e acordou seis horas depois, na Av. Brasil, em direção à praia.
Naquele tempo era possível andar pela Av. Brasil, sem levar tiro da polícia ou dos bandidos. O maior risco para um paulista, era a velocidade com que os cariocas dirigiam, costurando pela esquerda e pela direita, enquanto a gente tentava adivinhar qual alça de viaduto pegar para ir em direção à orla. Minha criança ficava assustada, vendo seu pai, o super-herói, atônito e perdido, enquanto a mãe invocava: "Meu São José! Minha Nossa Senhora!".
Porém, vencido esse obstáculo, uns vinte quilômetros depois, minha criança arregalava os olhos e deixava o queixo cair, a boca entreaberta, quando o carro chegava, sem aviso, na enseada de Botafogo e a paisagem explodia de tanta beleza. A mãe gritava: "Olha o mar, filho!". A criança, muda de deslumbramento, não respondia. A mãe, achando que era desinteresse, insistia: "Você está perdendo. Olha que bonito." A criança nunca tinha visto nada tão bonito. Aquele silêncio era um grito de emoção. Ela só achava esquisito aquele nó na garganta, aquela vontade de chorar. Por quê essa vontade de chorar, se ela estava tão feliz, mas tão feliz, de ver aquilo tudo, tão lindo?
Depois, a chegada no apartamento da tia e ver o mar lá de cima e um morro esquisito, pontudo. Explicaram que se chamava Pão de Açúcar. A criança associou o nome ao formato de uma baguete, mas não entendeu porquê era de açúcar. Será que era por causa da Páscoa?
Os primos tinham dois cachorros e um bicho que andava pela casa toda, parecendo um rato, só que era todo malhado de branco, marrom e preto e não tinha rabo. De vez em quando, parava no meio do caminho, levantava a cabecinha e guinchava: "Cuiimmm, cuuiiimmmm, cuimmmm..." A prima pegava o bichinho no colo e coçava a parte de baixo da cabecinha. O bichinho ia levantando o pescoço, lento, seus olhinhos ficavam semi-cerrados e ele ficava paradinho, quietinho, morrendo de prazer. O bichinho não era ele, era ela e tinha o nome de Gina. Minha criança ficou tão encantada por ela, que a tia lhe deu o porquinho-da-índia. Por mais que os pais protestassem, não houve meio de fazê-la desistir de levar o bicho.
Na sexta feira da Paixão, depois de cumprir o sacrifício de comer bacalhau com batatas e brócolis, minha criança estava ansiosíssima por um pedaço de ovo de chocolate. Não era o domingo ainda, mas o maior desejo da Páscoa já estava disponível. Fartou-se e foi dormir. Acordou vomitando o que tinha comido e mais um pouco. Pra piorar, febre e diarréia. Desidratação pode ser uma coisa bem perigosa em crianças.
Naquele tempo, não havia seguro-saúde. Chamava-se o médico em casa. Minha criança, esgotada, sonolenta, febril, tristonha e meio amarelinha, foi despertada por um senhor trazendo uma malinha marrom ovalada, de onde tirou um objeto esquisito, com uns tubos de borracha que ele enfiou nos seus próprios ouvidos e uma espécie de pirulito gelado que colocou no peito e nas costas do garoto, aumentando o frio que já o fazia tremer.
Minha criança não entendeu nada do que o homem do pirulito gelado falava, mas guardou duas palavras: "alergia" e "chocolate". "Acho que ele errou", pensou. "Ele quis dizer 'alegria'. Se tá falando de chocolate, só pode ser alegria." Mas, então, ouviu um final de frase, meio longe. Já de costas, saindo pela porta do quarto, o doutor dizia: "...não pode mais comer chocolate...".
Em plena Páscoa, o médico decretou que chocolate era proibido. Não sei o que doeu mais: a injeção, com seringa de vidro e agulha grossa fervida, ou a perspectiva da privação eterna da guloseima, como a danação de uma alma no terceiro círculo do inferno, reservado aos que cometeram o pecado da gula.
O fato é que minha criança nunca mais comeu chocolate. A Páscoa passou a ser uma data execrada, na qual ficava condenada a ver todas as outras abrirem seus ovos, com o ruído dos papéis laminados misturados aos gritos de alegria, e lambuzar-se - os dedos, as mãos, as bocas - de pasta marrom, com aquele perfume de cacau suspenso no ar.
Para não ser tão discriminada, minha criança ganhava, todos os anos, um lindo ovo de açúcar-cande, todo decorado com confeitos e marzipan. Era mesmo lindo. Mas, só isso: lindo. Não servia pra mais nada. O mais difícil era - ano após ano - receber a embalagem toda enfeitada, junto com as outras crianças e abri-la, sabendo o que iria encontrar dentro: todos os anos o mesmo ovo de açúcar-cande; sem nenhum chocolate. Logo que as embalagens eram abertas, esse ovo fazia algum sucesso; era diferente. Todos vinham admirar."Olha, que bonito!" "Puxa, que bacana". Mas logo voltavam aos seus ovos de chocolate para devorá-los. A minha criança se afastava e ia guardar o seu lindo ovo de açúcar-cande, decorado com confeitos e marzipan.
Anos depois, muitos anos depois, vim a constatar que nunca tivera nenhum tipo de alergia ou intolerância ao chocolate. O caro doutor errara seu diagnóstico. Aquilo era apenas uma intoxicação alimentar. Não tinha nada a ver com o chocolate. Mas, então, já era tarde. Minha criança interior nunca mais esqueceu das Páscoas que passou.
E sempre que fui ao Rio, fiquei novamente de boca aberta, encantado com a paisagem deslumbrante. Não deve existir cidade mais linda no mundo. Mas, todas as vezes em que lá voltei, minha criança interior ficou quieta e parou de sorrir.
Até se lembrar de que foi lá que ganhou uma amiguinha que guinchava pedindo cafuné no queixo. Uma amiguinha chamada Gina, que quase a fez esquecer do chocolate naquela Páscoa.

14 comentários:

Carlinha disse...

Lindo e triste Paulo.
Chorei, porque lembrei de coisas que minha criança também não se esquece... Você é maravilhoso no Dom das palavras.
Beijos e feliz páscoa com chocolates!

Fabiana Borges disse...

adorei conhecer esse espaço :)
Adoro o Rio tbm, mas minhas lembranças sobre lá são outras.Nada de infãncia ou inocência, coisa de adulto mesmo
:(!..

abraços e ótima páscoa.

M. disse...

Coincidência, passei esta Páscoa no Rio de Janeiro...E vc sabe como eu adoro histórias do passado, nostálgicas e sentimentais. Esse é um dos textos que mais me tocaram dos que li por aqui. beijos.

Anônimo disse...

Esses medicos... Fiquei curiosa pra saber como voce descobriu q nao tinha alergia? Num dia qualquer resolveu comer chocolate?
Luiza

Paulo de Tarso disse...

Carlinha: Ainda bem que a gente tem lembranças boas também, né? Bjo.

Fabiana: Obrigado pela visita. Volte sempre. Quanto mais amigos melhor.

M.: Continua valendo aquela história de a gente se ver na real, também. Bjo.

Luiza: Um dia, quase adulto, contei essa história pra um outro médico. Ele disse que os sintomas não eram compatíveis com um quadro alérgico. Aí, passei num bar e comprei um Sonho de Valsa. Enquanto comia na rua, babava de prazer. E não morri. O gozado é que não virei um chocólatra, como era de se esperar. Nem gosto tanto assim de chocolate.
Bem-vinda e volte sempre.

Gabi disse...

Pauloooooo, olha so esse blog que bacana !

http://joseantonioleaoramos.blogspot.com/

Beijos nossos !

Paulo de Tarso disse...

Gabi!!!!
O Seu Zé Antonio tem um bom gosto, hein. E que diversidade!!!! Adorei, vou ficar horas lá...
Obrigado! Beijos ao "Trio Esperança" (Gabi, Gaël e Flora...)

Andréa N. disse...

Que lindo, Paulo. A infancia eh tao triste. A minha infancia foi durissima- claustrofobica, sufocante, angustiante. Mas sempre acho que nao posso reclamar, nao tenho o direito, ja que fui privilegiada com casa, escola, comida no prato, etc. Entao fico quieta. Mas, to contigo.
E o Rio eh TUDO!

Ju disse...

Eu amo histórias de infância!
Ah, voltei, viu!
bjs

Andréa N. disse...

Muito 10 aquela poesia pra Hilda do Drummond. Ja tinha esquecido. 10!

Flávia disse...

Oi Paulo! Acabei de sair do blog da Déa e vim aqui para ver o post que vc prometeu... sobre desenho animado e a sua infância! Quero ler. Agora estou no trabalho, depois volto para ler direitinho seu blog.
Beijos

Andréa N. disse...

Eh, Paulo, cade o post sobre desenhos animados? Se anima aih, fio! :-)

Maiara disse...

Paulo, você saberia dizer onde compravam esse ovo de páscoa de açúcar cande????

Belo post!!!

Paulo de Tarso disse...

Oi, Maiara
Muito obrigado pela visita e pelo comentário.
Como você não deixou referência, só pude responder por aqui. Espero que você volte e veja a resposta.
O tal ovo de açúcar-cande, decorado, era da Kopenhägen. Nunca mais vi. Mas também não procurei.
Não sei se é produzido ainda.
Abraços.
Paulo