domingo, 23 de dezembro de 2007

CLARICE E O DNA

"Sangue não é água". Sempre que alguém fazia algo ou se comportava de maneira muito parecida com seus pais, minha avó soltava essa frase, querendo comentar, naturalmente, a força que a genética tem na formação das nossas potencialidades.
O Brasil é um país pródigo em talentos musicais. O mundo inteiro sabe disso. Menos o Brasil.

Nascem tantos talentos brasileiros, que famílias inteiras vão criando artistas, por várias gerações. Talvez o exemplo mais conhecido seja o da família Caymmi. Mas há outros. Elis e César geraram Pedro e Maria Rita. A mesma Elis e Ronaldo Boscoli geraram João Marcelo.
João e Miucha geraram Bebel. Simonal é pai de dois músicos absolutame
nte talentosos, assim como Jair Rodrigues. E esses talentos são tão explosivos e exuberantes que logo, logo, os garotos e garotas nos fazem esquecer que são filhos de seus talentosos pais; criam personalidades próprias e estilos únicos. Deixam de ser filhos de artistas e passam a ser eles mesmos os artistas.
Há outra família brasileira que gerou talentos maravilhosos. Mas po
uco conhecidos - ou pouco reconhecidos - no Brasil. Na verdade, nem a primeira geração tem aqui o reconhecimento que merece e que tem na Europa, nos Estados Unidos e no Japão.
Estou falando da família Assad. O primeiro fruto precioso dessa família é o Duo Assad, formado pelos irmãos Odair e Sérgio. São violonistas que, além de virtuosismo impressionante, têm repertório absolutamente criativo e totalmente calcado nas raízes da música brasileira.
Sua irmã mais nova, Badi, além do virtuose como instrumentista, criou e desenvolve um trabalho de percussão corporal e vocal, totalmente original.
Todos eles transpiram arte musical em cada poro.
Pois bem. Em outubro de 2004, a família Assad resolveu fazer uma homenagem às
suas matrizes, os pais Angelina e Sérgio, também músicos.
Prod
uziram um espetáculo lindíssimo com toda a família e escolheram o Palais des Beaux Arts, em Bruxelas para apresentar e gravar o show.
O resu
ltado é o DVD "Um SongBook Brasileiro", encontrado nas lojas brasileiras e que eu recomendo enfaticamente.
São quase duas horas de música brasileiríssima, tocada
como se fosse um encontro na sala dos Assad, para uma platéia lotada de belgas extasiados. A gente só percebe que não é a sala da família quando, nos intervalos das músicas, as novas formações e grupos que se sucedem, são anunciadas ao público, pelos Assad, num francês fluente e sem sotaque.
Dentre todas as estrelas que se apresentam, uma me chamou a atenção pelo talento
exuberante e pelo virtuosismo musical, mas, principalmente pela juventude e pela personalidade artística. Trata-se de Clarice, filha de Sérgio Assad. A jovem é instrumentista, compositora, arranjadora (são dela os arranjos vocais do show), cantora de timbre personalíssimo e tem uma presença cênica absolutamente magnética, além de ser linda e carismática.
S
eu arranjo vocal para a canção Jóia, de Caetano Veloso, cantada em três vozes, à capella, pela tia Badi, pela sua prima Carolina e por ela mesma é algo arrebatador. Uma daquelas coisas de se assitir com a boca abrindo lentamente e que, ao final, a platéia demora alguns segundos pra sair do transe e aplaudir.
Fora isso,
mostra composições suas, como por exemplo Ad lib, uma peça instrumental escrita para piano, voz e dois violões (executados pelo Duo Assad). A peça me remeteu à sonoridade de Egberto Gismonti, que eu ouvia demais nos anos 1980. Tem aquela mesma sofisticação harmônica e melódica, a mesma dificuldade técnica. E é executada com virtuosismo inacreditável pela jovem Clarice, responsável pelo piano e pela voz, em "scat singing" impressionante.
Em seu site, descobrimos que Clarice compõe música erudita de qualidade, como o lindo Concerto para Violino, Mov 2 e 3. Lá, sua voz pode ser ouvida na magnífica Miss Celie's Blue, em originalíssimo arranjo vocal a capella que criou para a canção (do filme "A Cor Púrpura"), no qual
sola a melodia, enquanto faz todas as não sei quantas vozes de harmonização em "backing".
Pouca gente deve conhecer o trabalho de Clarice Assad no Brasil. Ela está em Nova York, construindo sua carreira. Como os caras lá não são burros, logo, logo a gente vai ouvir falar aqui no Brasil de uma cantora
, compositora, arranjadora e instrumentista fantástica, "novaiorquina", fazendo o maior sucesso nos Estados Unidos, na Europa e no Japão. E, ao ler sua biografia na imprensa, vamos descobrir que é uma brasileira, carioca, que começou seus estudos de música aqui no Brasil, que se apresenta publicamente desde os 7 anos de idade, mas que - como tantos outros talentos nossos - foi fazer sucesso primeiro lá fora, onde seu valor é reconhecido e valorizado.
Vocês podem (devem) conhecer Clarice e seu trabalho, em seu site, ou no MySpace. E ter o prazer de ver nascer uma estrela
"supernova" brasileira, já brilhando na constelação da música internacional.
Ah... e comprem o DVD "Um Songbook Brasileiro". É de ouvir, ver e se emocionar.

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

UMA TAL DE Tal...

O nome da menininha aí do baixo - tocando com Jeff Beck - é Tal Wilkenfeld.
Nasceu na Australia e há cinco anos está nos Estados Unidos.
Já tocou com Eric Clapton, Chick Corea e outros monstros sagrados, que devem estar de boca aberta até agora.
Se eu não estivesse vendo o vídeo, não acreditaria.






KIMBER MANNING

Os Estados Unidos são o paraíso e o inferno dos músicos e artistas da música.
Qualquer músico quer estar em um lugar que tem as melhores escolas de música do mundo, o maior mercado, a maior platéia, muito dinheiro, muita gente disposta a produzir, etc. etc...
Mas o inferno é que tem gente boa pra caramba, aos montes.
Dando uma fuçadinha rápida no MySpace, encontrei um monte, mas um monte de gente boa, de quem nunca ouvi falar.
Só uma amostrinha: olhem a qualidade dessa moça: Kimber Manning.
Já ouviram falar?




terça-feira, 20 de novembro de 2007

FAZENDO A MINHA PARTE

Como podem ver, está meio difícil escrever aqui. Falta tempo. Faltam palavras. Mas principalmente, falta energia. Às vezes, sou tomado por um sentimento de prostração da alma. É uma fadiga interior tão intensa que me impede até de ler. Ou escrever.
Bem, isso é assunto para uma outra ocasião. O que me fez vencer esse tremendo cansaço e me arrastar até aqui, foi um e-mail que recebi da Riot, uma empresa de marketing viral, que está usando seu conhecimento para ajudar a divulgação do trabalho da WWF-Brasil e da campanha que a ONG está veiculando, sobre os efeitos da devastação ambiental.
Segundo o texto do e-mail, este espaço foi selecionado através de uma pesquisa da Riot, para receber esta mensagem. Pede apenas que eu ajude a divulgar a campanha e o trabalho da WWF.
O engraçado é que a pesquisa deles chegou até aqui, provavelmente por causa de dois artigos que publiquei sobre o tema: um em fevereiro e outro em junho. Nos dois, motivados justamente por pedidos de divulgação de temas sobre consciência ecológica, construo textos amargos e irônicos - quase sarcásticos - sobre a minha descrença na capacidade destas iniciativas surtirem algum efeito. Falo ali, da nossa incompetência em tomar atitudes coletivas suficientemente poderosas para mudar o rumo do desastre final que se anuncia. Na verdade, é uma espécie de desabafo. Um grito de raiva pela burrice da Humanidade, que vê a água chegando ao seu pescoço e não é capaz de fazer alguma coisa de concreto pra mudar a situação.
A WWF arrecada recursos através de mensalidades, afiliações, doações, parcerias corporativas e do licenciamento da marca. É muita gente trabalhando de graça. A campanha - totalmente realizada por trabalho voluntário - foi criada pela DM9, de Nizan Guanaes. Ninguém recebeu um centavo: produtores, criadores, animadores, redatores, ninguém. Nem os direitos de uso da trilha - "Money, Money", do filme Cabaret - foram pagos: a Warner e a Universal os cederam.
Bem, por mais que meu ceticismo reaja, argumentando que sempre há um interesse por trás desses atos - como, por exemplo, lustrar a imagem pública das empresas colaboradoras, associando sua marca a um trabalho social - o grande burro seria eu, se não reconhecesse que isso é a tal "atitude coletiva" da qual tanto duvido.
E, mais do que burro, eu seria um canalha se não me unisse a essas pessoas e tomasse uma atitude. Uma atitude coletiva.
Como disse, estou fazendo a minha parte. E continuo rezando. Mas, dessa vez, um pouco menos cético.
Assistam o filme da DM9, com o som ligado. Vale a pena.
E, se puderem, divulguem.


sábado, 18 de agosto de 2007

A ESPERANÇA É A ÚLTIMA QUE MORRE. A CRIANÇA É A PRIMEIRA.

A Globo fez mais um programa CRIANÇA ESPERANÇA.
Meu já notório ceticismo, viu aquela festa demagógica como uma espécie de "bolsa-família corporativa". O correspondente privado, do plano assistencialista-paternalista estatal do PT, que levou Luis Ignácio ao segundo mandato, a despeito de ter perdido totalmente o apoio da classe média, em virtude dos descalabros éticos cometidos por seus "quarenta" asseclas.
Qualquer "duda mendonça" de terceira linha sabe que vincular o nome de uma corporação (ou de um candidato) a obras de alcance social, faz um bem danado à imagem da empresa (ou do candidato). Assim, Globo e os demais patrocinadores do evento, com a chancela da UNESCO, ganham uma tremenda exposição e dão um baita polimento ao seu conceito público. Sem contar o lucro rachado com as operadoras de telefonia, que cobram R$0,27 do telefone fixo e R$0,50 do celular, "plus tax", por telefonema doador.
Quem pode ser contra uma iniciativa tão humanitária, com tanto alcance social? Quem não se comove frente às imagens das crianças pobres do terceiro mundo, jogadas nos lixões contaminados, morrendo de fome e doenças? Respondo: EU sou contra! EU NÃO me comovo!
Por total preguiça e falta de opção, fiquei assistindo o showzinho chatíssimo, com as atrações de sempre. Em determinado momento o indefectível Didi Mocó - considerado um embaixador da UNESCO para esse evento - entra em cena e declara, orgulhoso, que aquela é a 22ª. versão do CRIANÇA ESPERANÇA (!!!).
Quando ouvi isso, um sininho tocou dentro de mim. Fiquei pensando que há 22 anos o poderio da Globo e a influência popular dos artistas e celebridades que dão o seu aval, consegue arrecadar bilhões de reais para ser aplicados em projetos de recuperação social de crianças brasileiras.
Significa que, há 22 anos, essa "maravilhosa iniciativa" não adiantou nada. Em cada um destes 22 anos, sempre houve a necessidade de repetir a campanha no ano seguinte, porque o número de pobres, famintos, doentes, ignorantes, excluídos do terceiro mundo não parou de crescer exponencialmente. E isto vai se repetir nos próximos 22 anos; e depois nos próximos; e nos próximos.
Sempre vi a prática de doações, como uma ação paternalista, inócua e mal intencionada. Enquanto se faz caridade, enquanto se doa, joga-se uma nuvem de fumaça sobre as reais causas da pobreza e da exclusão; e distrai-se o olhar da ausência de verdadeira política social, que ocorre há séculos (precisamente, há cinco séculos), " nefte paíf ", como diria Luis Ignacio.
A questão é a seguinte: estes desvalidos, são cidadãos, embora nem saibam disso e nem o que é isso. Eles têm direito de ter uma vida digna, usando seus próprios recursos. Compete à sociedade organizada, sob que forma for e em qualquer nível (municipal, estadual, nacional ou mundial), prover condições para que todos, TODOS, tenham condição de não precisar de doações do CRIANÇA ESPERANÇA ou de depender do BOLSA-FAMÍLIA, para sobreviver.

O fato de existirem iniciativas desse gênero, por si só, já denuncia nosso fracasso como sociedade organizada minimamente digna.
Quando tomou posse, Luis Ignacio levou todos os seus ministros para um "POBRE- TUR". Foram todos passear, de ônibus fretado e barcos com amplas janelas para que pudessem "ver" como são pobres as regiões mais pobres do país. DEMAGOGOS, VIS! Que tipo de política de inclusão social ou de recuperação da cidadania daqueles miseráveis, nasceu dessa iniciativa ridícula? NENHUMA! Ou melhor, uma: o Bolsa-Família. Programa que serviu apenas para dar a Luis Ignacio o segundo mandato.
É claro que os miseráveis votam em alguém que lhes dê um salário mínimo ou uma cesta-básica qualquer. Eles não têm nada! Nem a consciência de saber que têm direito a muito mais do que isso. E votam no Messias que os salvará da morte imediata pela fome. Ao contrário, morrerão de uma morte lenta, pela miséria crônica, que fatalmente os levará depois de terem vivido uma vida curta, sem nenhuma qualidade a não ser o fubá da bolsa-família e o sinal via satélite da Globo, levando o FANTÁSTICO para distraí-los todo final de semana e o show do CRIANÇA ESPERANÇA - uma vez por ano, todos os anos, eternidade afora - para poderem cantar com a "galera": POEIRA! POEIRA! ILÁRILARILARIÊ! Ô! Ô! Ô!
Enquanto isso, a ponta oposta da pirâmide triplica seus rendimentos, sonega impostos, faz contrabando de divisas para o exterior, estaciona suas Ferraris, Mercedes e BMWs em fila dupla, interrompendo o trânsito da Rua Haddock Lobo, para ir comer no Rodeio ou no Fasano, financia campanhas eleitorais com o caixa-dois, que os políticos beneficiados chamam de "recursos não contabilizados", compram roupas e acessórios importados nas "daslus", a preços imorais, publica balancetes bancários com lucros pornográficos..., ..., ...

Esperança, criança? Que esperança!!!!

terça-feira, 31 de julho de 2007

CELEBRAR...SE LEMBRAR...

Dia 24, este espaço completou um ano de existência. Esqueci... Minha mãe dizia que a gente só esquece do que não interessa. Penso que ela tinha (tem) razão.
Mas não é ao blog que não dou importância. Não dou importância à data. Ou à comemoração da data. Tenho uma tendência a esquecer aniversários e datas comemorativas. Inclusive as minhas e de meus chegados. Até hoje não tenho uma explicação razoável para isso. Mesmo pequeno, não gostava muito do dia do meu aniversário. Ficava num estado de tensão e desconforto. E não gostava da festa. Como não gosto hoje.
Pra dizer a verdade, a única festa de aniversário que curti muito foi quando completei cinqüenta anos. Os emblemáticos cinqüenta anos. Essa foi muito diferente porquê minha mulher preparou uma festa-surpresa. Convidou um grupo pequeno de amigos e conseguiu manter tudo em segredo. Armou uma arapuca pra mim em minha própria casa e, inteligentemente, usou minha própria ojeriza a festas em geral, como isca. Disse que precisava ir a uma festa de aniversário de uma amiga e que gostaria muito que eu fosse com ela. Arriscou, porque eu poderia concordar. Mas ela sabia da minha má vontade. Respondi que, se fosse absolutamente necessário eu iria, mas que preferia não ir, "porque ela não ia com alguém", etc.. etc... Pronto! Isca engolida...
Na hora da festa todos se vestiram e saíram de casa. Eu, feliz da vida, vesti minha camiseta mais velha, rasgada e manchada, e o moleton mais ridículo, pra ficar gostosamente em casa, não fazendo nada, vendo TV, bundando...
Quando estava na mais absoluta paz, deitado no sofá, vendo um filme babaca qualquer, toca o interfone. Já levantei mal humorado. O porteiro avisava que o síndico precisava falar comigo e me aguardava no térreo. Pensei comigo: "Que porra esse cara pode querer comigo num sábado às dez da noite?". Vesti um ridículo chinelo e desci de cara amarrada e amarrotada. Tudo estava escuro no térreo. Fui até a guarita e perguntei ao porteiro onde estava o síndico. Ele respondeu que estava me esperando perto da churrasqueira, atrás do salão de festas. Pensei em algum problema de infiltração repentina ou uma emergência elétrica qualquer que pudesse por em risco o prédio, pra justificar aquele chamado tão inoportuno. Quando passei pela porta do salão - todo apagado - ouvi alguém chamando meu nome. Achei estranho, mas fui chegando até a porta devagarinho... O desfecho é óbvio: luzes se acendem repentinamente e uma multidão de caras conhecidas - totalmente inesperadas - canta o mais estrondoso e barulhento "Parabéns a Você" que eu já ouvira. Fiquei parado, completamente sem ação, sem saber o que sentir nem o que pensar. Num ambiente todo decorado com muito bom gosto, literalmente cercado de gente vestida e enfeitada para a ocasião, na minha própria festa, lá estava eu, ridiculamente vestido, usando uma roupa com que, certamente, não receberia nem minha própria mãe. Foi o melhor choque que levei em toda a minha vida. E ficou uma lembrança muito gostosa desse momento.
Mas isso foi especial. Continuei e continuo não dando a menor importância para essa contagem de tempo. Os ciclos internos - aqueles que realmente marcam as mudanças essenciais da vida - não são medidos em tempo, segundo uma unidade de medida física. O tempo interno é outro. E é esse que vale. Cada um tem o seu e, na maioria das vezes, nosso tempo não está em harmonia com o tempo dos outros. Às vezes, nosso tempo de falar não é o tempo de ouvir do outro. Nosso tempo de calar acontece justamente quando alguém precisa da nossa palavra. E assim, vamos esbarrando nas desarmonias...
Contudo, tive uma lembrança atrasada, mas espontânea desta data. Achei, então, que devia registrar o evento. Menos por mim do que por alguns bons amigos que fiz, justamente por causa deste espaço. Estes encontros, sim, merecem ser comemorados. Todos os dias. Todas as horas. A qualquer tempo.
Há gente que detesta a internet. Hoje mesmo, li que Elton John pediu a extinção da internet (leia aqui). Diz ele que "a internet fez com que as pessoas deixem de se comunicar e se encontrar" (sic). Na verdade, Elton John está preocupado com a vendagem de seus discos, que despencou - como de outros artistas - por causa da troca de arquivos na rede. Ok, isso é assunto a ser discutido. Agora, acabar com a internet por causa disso é o mesmo que acabar com a aviação porquê houve um terrível acidente ou porquê, nas guerras, os aviões são utilizados para fazer bombardeios e matar gente. Ora, não é a aviação que está errada. É o uso que as pessoas fazem dela.
Minha experiência com a internet é de total encontro. O argumento que Elton John usa é pueril e falso. Ele mesmo admite ser um "tecnófobo". Aliás, conheço vários assim. Como alguém, que detesta tecnologia, computadores e internet, pode opinar sobre o que não experimenta?
Conheci gente com quem tive a maior afinidade, por aqui. Outras, nem tanto. E outras, ainda, nenhuma. Assim como na vida real. Me aproximei cada vez mais de quem me senti afim. Me afastei de quem não gostei. Como na vida real. Às vezes, fico um tempão sem fazer contato com gente de quem gosto muito. Como na vida real. Às vezes, alguém me enche o saco na rede. Como na vida real.
As pessoas de quem me aproximei e com quem fiz laços de amizade calorosa e carinhosa - embora não as conheça pessoalmente e nem saiba de seus lados fracos e escuros, assim como ocorre na vida real - essas pessoas fazem valer muito a pena suportar os personagens peversos com quem me deparo eventualmente no mundo virtual. Assim como ocorre no mundo real.
Como disse, é por estas pessoas - pelos amigos e amigas que me visitaram; os que deixaram de presente suas palavras; os que vieram se "encontrar" comigo aqui, como se viessem à minha casa; os que vieram, leram e foram embora sem nada comentar; os que reclamaram quando demorei pra aparecer; os que se preocuparam, quando me perceberam triste; os que sorriram de volta, quando eu sorri pra eles através da minha palavra escrita; os que me receberam com carinho e hospitalidade em seus sítios; os que foram cúmplices, mesmo não concordando e os que discordaram sem perder a ternura (parafraseando um famoso guerrilheiro) - é por eles e elas que eu registro esta data. E é nelas e neles que penso, quando lembro que, há um ano, tomei posse deste espaço.
Quando publiquei meu primeiro artigo, em 24 de julho de 2006, perguntei a mim mesmo: "Quem será que vai ler isso? Que interesse alguém pode ter por isso?" Há um ano deixo aqui alguns fragmentos de mim mesmo. Hoje, sei a resposta àquelas perguntas. Esses e essas que vêm aqui, têm interesse por mim. Isso é o que pessoas afins sentem umas pelas outras: interesse, no sentido mais elevado da palavra. Interesse que significa atenção, carinho e aquela maravilhosa sensação de ver-se no outro. O que nos torna cúmplices e unos. O que nos ampara, nos acolhe e nos aquece, em meio ao inevitável frio da solidão humana.


A estes amigos e amigas dedico esta data.

domingo, 10 de junho de 2007

FAÇA A SUA PARTE! E CONTINUE REZANDO...

Há alguns artigos atrás, falei sobre a utopia de a Humanidade tomar uma atitude coletiva, para tentar solucionar os problemas derivados do desequilíbrio ambiental. Na ocasião, aproveitei-me de artigo do psicanalista e escritor Contardo Calligaris, que deu a base de credibilidade intelectual para a tese que eu defendia.
Hoje, deparei-me com um vídeo gravado na II Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento - ECO 92, realizada no Rio de Janeiro naquele ano, durante o governo Collor, com grande pompa, circunstância e marquetagem, das quais se aproveitaram o próprio Collor e os demais chefes de governo que aqui estiveram.
O exército foi convocado para garantir a segurança dos excelentíssimos nas ruas do Rio, que ficou praticamente sitiado, com barricadas nas Linha Vermelha e Amarela, tanques de guerra e armamento pesado.
Nenhum outro forum mundial conseguiu reunir tantos chefes de estado, ministros e representantes. Participaram mais de 178 países, inclusive o maior poluidor da Terra, os Estados Unidos.
Como desdobramento da ECO 92, cinco anos após, foi realizado em Kyoto, no Japão, outro encontro do qual resultou o chamado Protocolo de Kyoto, um pacto internacional que procurava reduzir o nível de emissão de CO2 na atmosfera, pelos países industrializados. O maior poluidor da Terra não assinou o documento.
No meio de tantas celebridades, gente poderosa e importante, uma menina de 13 anos, subiu ao pódio e leu um discurso para as "otoridades" presentes. O texto é um tapa na cara dos excelentíssimos. Por si só, é lindo, sem ser piegas ou demagógico.
Porém o que me tocou - e que só no vídeo é possível perceber - é a atitude da menina, mal saída da segunda infância, que lê o discurso, mas olha nos olhos do auditório. De vez em quando, lê uma frase e olha para a mesa coordenadora como quem diz: "Isso é pra vocês". Fala com personalidade e com altivez. E o melhor é ver a cara de bunda dos excelentíssimos, totalmente constrangidos e desconfortáveis.

Agora, me respondam: o que aconteceu no mundo, entre o discurso da garota (e todo o barulho da ECO 92), e o que estamos vivendo hoje, 15 anos depois?


Assistam. Vale a pena.

segunda-feira, 7 de maio de 2007

"RAT RACE"

O ato de escrever, exige a prática do que o sociólogo italiano Domenico de Masi, chamou de "ócio criativo": aquele estado contemplativo, em que nos colocamos disponíveis para o livre fluxo das idéias e para o emergir das energias criativas do espírito e da mente.
Ao contrário do que exige a era pós-industrial, calcada no binômio produção-consumo, uma sociedade baseada nos princípios de Domenico de Masi seria uma sociedade muito menos voltada para o consumo. E, assim, muito mais criativa e feliz.
Isso não interessa de jeito nenhum às forças econômicas. Todos somos condicionados a trabalhar, trabalhar, trabalhar para poder consumir, consumir, consumir. É como aquelas corridas de cães, em que se coloca à vista dos pobres animais, uma presa mecânica que anda a uma velocidade bem superior à deles, fazendo com que corram o máximo que podem, sem nunca conseguir alcançá-la. Em inglês, chama-se a isso de "rat race", corrida de ratos, em alusão ao ratinho de laboratório que fica correndo sobre a roda, fazendo um esforço extremo e inútil para fugir.
Todos estamos condicionados, como galgos de corrida, a ir, compulsivamente, atrás das "presas" que, segundo o mercado, nos farão felizes. Nossa imbecilidade permite que nos vendam esta idéia. Criam-nos necessidades que nunca tivemos, mas que passamos a desejar como se fossem imprescindíveis para nossa vida. Conseguem atribuir símbolos tão fortes a esses "gadgets", que fazem com que milhares de babacas gastem milhares de dinheiros para ter qualquer coisa que lhes façam sentir-se: poderosas, lindos, inteligentes, potentes, gostosas, irresistíveis, respeitadas e tudo aquilo que não são. A coisa é tão bem bolada, que, no mesmo momento em que logram adquirir um destes símbolos - que pode ser uma Ferrari, para alguns, ou um somzinho três-em-um, comprado no crediário das Casas Bahia, para outros - aquele objeto perde o poder mágico que até então lhe fora conferido e, imediatamente, outro objeto de desejo lhe ocupa o lugar. Nós, os cães, continuamos a correr atrás da lebre mecânica. Nós, os ratos, continuamos a girar a rodinha.
Fugi do assunto inicial. A indignação me foi levando, como um vento lateral. Só queria dizer que, sem o tal ócio, fica difícil escrever. Sinto-me vazio, porquê as energias da criação estão sufocadas. Estou ocupado em perseguir minha lebre mecânica e não pude parar um só instante, para abrir os canais da criação e os caminhos da reflexão.
Essa corrida interminável levou-me a participar de um congresso na Ilha de Santa Catarina, um lugar que, se não é o paraíso, deve ser sua entrada. Não vou falar nada desse lugar. Cliquem na figura, ao final do texto para ver um álbum com uma pequena amostra do que lá vi.
O irônico é que, só pude ver e fotografar, mesmo. Assim, de longe. Noventa por cento do tempo, fiquei encerrado em um auditório com as luzes apagadas, assistindo projeções e apresentações feitas em PowerPoint, em companhia de umas mil e duzentas pessoas. Quando saía da sala, em algum intervalo (chamado aqui no Brasil de "cofee-break", em nosso dialeto oficial), o sol me cegava de tanto esplendor e o azul do céu caía sobre minha cabeça com um grande estrondo. Ao final da última palestra de cada dia, já encontrava a noite estrelada, tão estrelada quanto uma noite de Van Gogh. Mas, não dava tempo pra ficar olhando. Era necessário voltar à corrida.
O cômico - ou o dramático - é que, toda essa corrida serve pra eu poder um dia ficar olhando o horizonte, horas a fio, como faz o surfista aí da foto, esperando a melhor onda; ou poder ter tempo de deitar na rede da varanda - que havia no hotel, mas que não usei - para ficar olhando aqueles zilhões de estrelas e inspirando lentamente a fresca brisa do mar.
Agora, se vocês me dão licença, preciso continuar minha corrida...




COSTÃO

sábado, 7 de abril de 2007

QUE TRAZES PRA MIM?

Dizem que elefantes têm memória de elefante.
Pode ser. Mas crianças têm memória muito melhor.
Crianças jamais esquecem. Mesmo quando viram adultas.
Minha criança interna lembra-se de tudo o que lhe aconteceu. De bom e de mal.
Minha criança lembra-se perfeitamente de uma Páscoa que passou no Rio de Janeiro. Na quinta-feira santa, minha criança deitou no imenso banco de trás de um Mercury 57, azul-bebê, conversível, com capota de lona preta e acordou seis horas depois, na Av. Brasil, em direção à praia.
Naquele tempo era possível andar pela Av. Brasil, sem levar tiro da polícia ou dos bandidos. O maior risco para um paulista, era a velocidade com que os cariocas dirigiam, costurando pela esquerda e pela direita, enquanto a gente tentava adivinhar qual alça de viaduto pegar para ir em direção à orla. Minha criança ficava assustada, vendo seu pai, o super-herói, atônito e perdido, enquanto a mãe invocava: "Meu São José! Minha Nossa Senhora!".
Porém, vencido esse obstáculo, uns vinte quilômetros depois, minha criança arregalava os olhos e deixava o queixo cair, a boca entreaberta, quando o carro chegava, sem aviso, na enseada de Botafogo e a paisagem explodia de tanta beleza. A mãe gritava: "Olha o mar, filho!". A criança, muda de deslumbramento, não respondia. A mãe, achando que era desinteresse, insistia: "Você está perdendo. Olha que bonito." A criança nunca tinha visto nada tão bonito. Aquele silêncio era um grito de emoção. Ela só achava esquisito aquele nó na garganta, aquela vontade de chorar. Por quê essa vontade de chorar, se ela estava tão feliz, mas tão feliz, de ver aquilo tudo, tão lindo?
Depois, a chegada no apartamento da tia e ver o mar lá de cima e um morro esquisito, pontudo. Explicaram que se chamava Pão de Açúcar. A criança associou o nome ao formato de uma baguete, mas não entendeu porquê era de açúcar. Será que era por causa da Páscoa?
Os primos tinham dois cachorros e um bicho que andava pela casa toda, parecendo um rato, só que era todo malhado de branco, marrom e preto e não tinha rabo. De vez em quando, parava no meio do caminho, levantava a cabecinha e guinchava: "Cuiimmm, cuuiiimmmm, cuimmmm..." A prima pegava o bichinho no colo e coçava a parte de baixo da cabecinha. O bichinho ia levantando o pescoço, lento, seus olhinhos ficavam semi-cerrados e ele ficava paradinho, quietinho, morrendo de prazer. O bichinho não era ele, era ela e tinha o nome de Gina. Minha criança ficou tão encantada por ela, que a tia lhe deu o porquinho-da-índia. Por mais que os pais protestassem, não houve meio de fazê-la desistir de levar o bicho.
Na sexta feira da Paixão, depois de cumprir o sacrifício de comer bacalhau com batatas e brócolis, minha criança estava ansiosíssima por um pedaço de ovo de chocolate. Não era o domingo ainda, mas o maior desejo da Páscoa já estava disponível. Fartou-se e foi dormir. Acordou vomitando o que tinha comido e mais um pouco. Pra piorar, febre e diarréia. Desidratação pode ser uma coisa bem perigosa em crianças.
Naquele tempo, não havia seguro-saúde. Chamava-se o médico em casa. Minha criança, esgotada, sonolenta, febril, tristonha e meio amarelinha, foi despertada por um senhor trazendo uma malinha marrom ovalada, de onde tirou um objeto esquisito, com uns tubos de borracha que ele enfiou nos seus próprios ouvidos e uma espécie de pirulito gelado que colocou no peito e nas costas do garoto, aumentando o frio que já o fazia tremer.
Minha criança não entendeu nada do que o homem do pirulito gelado falava, mas guardou duas palavras: "alergia" e "chocolate". "Acho que ele errou", pensou. "Ele quis dizer 'alegria'. Se tá falando de chocolate, só pode ser alegria." Mas, então, ouviu um final de frase, meio longe. Já de costas, saindo pela porta do quarto, o doutor dizia: "...não pode mais comer chocolate...".
Em plena Páscoa, o médico decretou que chocolate era proibido. Não sei o que doeu mais: a injeção, com seringa de vidro e agulha grossa fervida, ou a perspectiva da privação eterna da guloseima, como a danação de uma alma no terceiro círculo do inferno, reservado aos que cometeram o pecado da gula.
O fato é que minha criança nunca mais comeu chocolate. A Páscoa passou a ser uma data execrada, na qual ficava condenada a ver todas as outras abrirem seus ovos, com o ruído dos papéis laminados misturados aos gritos de alegria, e lambuzar-se - os dedos, as mãos, as bocas - de pasta marrom, com aquele perfume de cacau suspenso no ar.
Para não ser tão discriminada, minha criança ganhava, todos os anos, um lindo ovo de açúcar-cande, todo decorado com confeitos e marzipan. Era mesmo lindo. Mas, só isso: lindo. Não servia pra mais nada. O mais difícil era - ano após ano - receber a embalagem toda enfeitada, junto com as outras crianças e abri-la, sabendo o que iria encontrar dentro: todos os anos o mesmo ovo de açúcar-cande; sem nenhum chocolate. Logo que as embalagens eram abertas, esse ovo fazia algum sucesso; era diferente. Todos vinham admirar."Olha, que bonito!" "Puxa, que bacana". Mas logo voltavam aos seus ovos de chocolate para devorá-los. A minha criança se afastava e ia guardar o seu lindo ovo de açúcar-cande, decorado com confeitos e marzipan.
Anos depois, muitos anos depois, vim a constatar que nunca tivera nenhum tipo de alergia ou intolerância ao chocolate. O caro doutor errara seu diagnóstico. Aquilo era apenas uma intoxicação alimentar. Não tinha nada a ver com o chocolate. Mas, então, já era tarde. Minha criança interior nunca mais esqueceu das Páscoas que passou.
E sempre que fui ao Rio, fiquei novamente de boca aberta, encantado com a paisagem deslumbrante. Não deve existir cidade mais linda no mundo. Mas, todas as vezes em que lá voltei, minha criança interior ficou quieta e parou de sorrir.
Até se lembrar de que foi lá que ganhou uma amiguinha que guinchava pedindo cafuné no queixo. Uma amiguinha chamada Gina, que quase a fez esquecer do chocolate naquela Páscoa.

sábado, 31 de março de 2007

HARMONIAS DIVINAS

Um dos instrumentos mais lindos que conheço é a voz humana.
O canto - a melodia executada pela vibração das cordas vocais - é alguma coisa de divino.
E dentro das modalidades de canto, a execução à "capella", sem acompanhamento instrumental, é uma das coisas mais tocantes e emotivas que se pode ouvir.
Sabendo disso, desse efeito explosivo na emoção, a Igreja desde sempre utilizou o canto como forma de propagar a palavra de Deus.
Na Idade Média, as primeiras formas de canto litúrgico foram baseadas no canto grego e, por volta do século IX, surgiu o canto gregoriano, assim chamado por ser atribuído ao Papa Gregório, que o teria incorporado definitivamente à liturgia.
O canto gregoriano caracteriza-se por ser entoado em uníssono, isto é, uma monofonia. Todo o coro emite a mesma nota da melodia, na mesma altura, sem nenhum intervalo. Isso se prestava muito para a veiculação dos recitativos e orações. Dessa forma, a palavra era o elemento mais importante da canção.
Durante muito tempo, a Igreja - poderosíssima na época - legislando sobre tudo, proibiu a polifonia. A harmonia gerada pela polifonia - emissão de duas ou mais notas com intervalos de terças, quartas ou quintas, era considerada frívola, herege e lasciva. Um obstáculo à compreensão da palavra de Deus veiculada de forma monótona pelo canto gregoriano monofônico.
Felizmente, Deus era mais sensível e inteligente do que a Igreja e mandou a Renascença. Com ela, a polifonia ganhou espaço a tal ponto, que a própria Igreja resolveu aderir à nova moda, já que os fiéis preferiam muito mais a música polifônica, já totalmente ambientada nas canções profanas.
O encontro de notas formando acordes, especialmente quando emitidas pela voz humana, é capaz de levar nossa alma a estados de verdadeira elevação, independente do caráter sacro ou profano do canto.
Tenho verdadeira adoração por harmonia vocal. Penso que é um dos trabalhos mais lindos e difíceis que se pode fazer em música.
Existem, hoje, muitos conjuntos e grupos especialistas nesse tipo de trabalho. Pra ficar apenas nos contemporâneos, cito o Take 6 e o Manhattan Transfer. No Brasil, tivemos há algum tempo, o Quarteto em Cy e o MPB4. São muitos mesmo.
Porém, existem dois grupos cujo trabalho acho pouco conhecido aqui no Brasil, embora um deles seja brasileiríssimo.
O primeiro é um conjunto italiano chamado NERI PER CASO. Tem um trabalho precioso e original que soma harmonia vocal com percussão bucal e corporal. O resultado é absolutamente criativo e cheio de personalidade. O baixo funciona como o verdadeiro instrumento e, em alguns momentos, é difícil acreditar que sejam apenas vozes o que ouvimos ali.
Deixo aqui dois exemplos do virtuosismo desse pessoal. A primeira canção chama-se CENTRO DI GRAVITA PERMANENTE e a segunda é a versão mais saborosa que já ouvi de WHITE CHRISTMAS, que considero a mais linda canção popular americana sobre o tema. Clique nos links e ouça. Vale muito a pena.
O outro grupo tem uma história interessante. É o brasileiro TRIO ESPERANÇA, que nos tempos da Jovem Guarda, cantava bobagens infantis como a "Festa do Bolinha" e a ridícula "Filme Triste". Quem tem menos de quarenta e cinco anos e não conhece essas músicas não deve procurar conhecer, nem por curiosidade. Acontece que, após o fim do grupo, sua cantora mais talentosa , Evinha, fez uma carreira solo de relativo sucesso cantando uma linda canção de Antonio Adolfo e Tibério Gaspar, chamada TELETEMA, além da delicada CASACO MARROM. Porém, Evinha estourou mesmo defendendo a maravilhosa CANTIGA POR LUCIANA, de Paulinho Tapajós e Edmundo Souto, que ganhou o 1º lugar no IV FESTIVAL INTERNACIONAL DA CANÇÃO, em 1969.
Evinha partiu para uma carreira internacional e acabou se casando com o pianista da orquestra de Paul Mauriat - com quem excursionou pela Europa e Japão - e fixou residência na França. Ficou muitos anos sem cantar, mas um dia resolveu reviver o Trio Esperança. Chamou duas de suas irmãs, Marisa e Regina, e gravou dois Cds à capella. É um trabalho de harmonização vocal fantástico, com arranjos sofisticadíssimos e dificílimos. Não teve muita repercussão no Brasil, mas parece ter feito mais sucesso na França. A amostra é a jobiniana ÁGUAS DE MARÇO. Sem comentários.
Pra terminar, a segunda música do Trio Esperança que deixo aqui, é um presente para um lindo casal de amigos. Ela, como a Evinha, é brasileira e, também como a Evinha, casou-se com um francês. Chama-se Gabi e é a autora do lindo blog Quase Vida. Ele é o Gaël, grande fotógrafo, como vocês podem conferir, clicando aqui. Ambos estão ansiosamente esperando a pequena Flora, que deve nascer em breve. Chama-se LA LUNE EST MORTE - uma canção infantil, cantada em francês, por brasileiras. Penso que a Flora vai gostar de ouvir. Também estou ansioso pra saber. Gabi e Gaël, depois me digam se acertei.

Ouvindo essas quatro canções à capella, com essas harmonias vocais, fico pensando como a Igreja pôde, por tanto tempo, considerar a polifonia coisa do demo...
Era a Idade das Trevas, mesmo.

sábado, 17 de março de 2007

NÃO TENHO PALAVRAS...

Ando sem palavras.
Dizem que "uma imagem vale por mil palavras".
Acho discutível e já vou dizendo que não concordo. É bom tema para um próximo texto, quando as palavras voltarem.
Como não as tenho (as palavras) no momento, deixo três imagens para vocês.
Pra quem acredita na frase, isso deve valer por três mil palavras.
Quem não acredita, fique com as imagens.

As fotos abaixo não foram feitas em nenhuma praia paradisíaca do Hawaii, nem em uma ilha caribenha, nem mesmo no litoral sul da Bahia. Nem, tampouco, no maravilhoso litoral norte de São Paulo.

Esses lugares badalados e cantados em prosa e verso, merecem sua fama. São mesmo lindos.


C
ontudo, a Natureza é generosa. Distribuiu seus tesouros por todos os lugares.
Essa prainha esquecida e sem nenhuma fama, nenhum glamour, sem badalação e sem prestígio nenhum pode também, ser bonita.


A Natureza faz a sua parte.
O resto depende do olhar de quem vê
.




















* Clique nas fotos para ampliar. Se quiser copia-las, por favor cite a fonte e o autor. Obrigado.

sexta-feira, 9 de março de 2007

ANOTHER BRICK IN THE WALL

Se eu disser que alguém tem espírito científico, qual é a imagem que vem à sua mente? Provavelmente alguém com a camisa abotoada até o pescoço, vestindo um avental tão branco quanto a própria pele, usando óculos e totalmente desinteressante e apático. Pelo menos, este é o estereótipo.
Esse mesmo cara, quando era garoto, no mais das vezes era classificado como um "nerd" babaca. Sentava nas primeira carteiras, era comportadinho e só tirava notas boas. Os "espertos" faziam roda em volta dele nas provas, pra poder colar. Tinha um comportamento dócil, obediente e passivo. Não questionava nada. Era o "bonzinho". Pelo menos, este é o estereótipo.
É claro que estereótipos são modelos criados a partir do preconceito e de falsas generalizações. Contudo, estes rótulos têm força arquetípica em nosso imaginário. Embora sejam criados fora, por outros, e não brotem do nosso inconsciente, como os arquétipos, nós os adotamos como modelos de comportamento, de acordo com nossa maior ou menor identificação com o grupo ao qual pretendemos nos inserir. Isto é, nossas ações e comportamentos são o passaporte para sermos aceitos pelos outros como iguais. Muitas vezes à custa de enorme repressão aos nossos desejos e aspirações próprios. Pronto: estão instaladas as sementes das doenças psíquicas e emocionais de todos nós. Depressão, ansiedade, neuroses e, arriscaria, até esquizofrenias e comportamentos sociopatas, são frutos - entre outros fatores - de vivenciarmos um distanciamento de nós mesmos. Perdemo-nos de nossa identidade interna e não nos reconhecemos mais. Criamos uma persona que interage com o mundo, mas que é completamente diferente de nós mesmos. Para mantê-la viva e corresponder às expectativas do grupo, gastamos uma enorme quantidade de energia psíquica, o que nos deixa frágeis, ansiosos, depressivos, neuróticos e por aí vai. Claro que tudo depende do quanto permitimos que essa persona se apodere de nós.
Quando não permitimos nada disso, nem um pouco, o grupo nos rotula de rebeldes. Apenas, por agirmos de acordo com nossas convicções internas e não de acordo com as expectativas do grupo. É mais um estereótipo.
É justamente a dicotomia destes rótulos, "comportado ou rebelde", que tem me incomodado muito, especialmente no ensino acadêmico.
A busca de conhecimento, o tal "espírito científico" a que me referi na primeira linha, a expansão da cultura, enfim, o ato de aprender, tem para mim - ao contrário do estereótipo do "nerd", do aluno bonzinho, do "cu-de-ferro" - um sentido intenso de rebeldia . Para aprender realmente, o cara tem de ser um rebelde.
Só os rebeldes são questionadores. Não há maneira de buscar conhecimento e realmente entender as coisas, se não questionarmos as verdades pré-estabelecidas. Ciência, na verdade, é filosofia. Quer dizer, para se fazer ciência é necessário ter "mente filosófica". Aquele tipo de pensador que diz: "Eu vi isso. Mas será que eu vi isso mesmo?" Um intelecto treinado para, frente a uma afirmação de alguém, dizer: "Será que isso é exato?". O cientista é um cético por natureza. Não acredita nem nos fenômenos que ele próprio produziu. "Será que isso aconteceu mesmo?"
Só os rebeldes criam novos caminhos. E aprender de verdade é saber buscar novas soluções, tentar outras abordagens. Inventar. Por quê achamos Leonardo da Vinci, um gênio? Por quê entendemos que Thomas Edson ou Santos Dumont, ou Mozart, ou Tom Jobim, ou Ronaldinho Gaúcho, ou Elis Regina são gênios? O que essas pessoas têm em comum é a inquietude de buscar novos caminhos, embora já exista uma larga estrada - trilhada por todos os demais - bem ali à sua frente. Eles têm a coragem de criar, a coragem de inventar. Ir contra o senso comum e arriscar-se a ser rejeitados pelo grupo, o que na maioria das vezes acontece.
Depois de tantas revoluções culturais e comportamentais, ocorridas na segunda metade do século passado e da disseminação global dessas idéias, à custa de muita porrada em estudante, à custa de guerras e vidas humanas, depois da queda de quase todas as ditaduras do mundo, o que me preocupa é que vejo uma escola careta.
Não vejo, aqui em meu país, em nenhum nível educacional - do maternal à universidade - uma escola que estimule o aluno a questionar, pensar por si próprio. Buscar o conhecimento, mas refletir sobre a informação obtida. Não vejo a escola instigar o indivíduo a criar novas saídas. Não vejo a escola propondo discutir, confrontar idéias. Não vejo ninguém ensinar ninguém a pensar. Ao contrário, manda o mercado. Tem sucesso financeiro quem (diz que) coloca mais alunos dentro da universidade. Que tipo de gente entra nessa universidade? Que tipo de universidade essa gente faz? Que tipo de gente se forma, faz mestrado, doutorado? Que tipo de gente dá aulas para outros alunos que não pensam?
Nunca, na história do mundo, houve tanta informação disponível tão facilmente para tanta gente. Nunca houve tanta gente tão bem informada sobre tudo. As crianças, desde muito pequenas até a adolescência sabem tudo de tudo. Mas o que fazem com tanto (suposto) conhecimento? Pra que serve tanto saber sem a mente filosófica, sem a mente criativa, sem a mente inquieta para processar isso tudo e tornar este saber algo transformador. E o mundo nunca esteve tão necessitado de transfomação. Ou, por quê vocês acham que há cinqüenta anos se fala em aquecimento global e agora o fenômeno é manchete de jornais, como se tivesse aparecido o ano passado.
Os fatos já são terríveis por si só. Mas um medo maior me apavora. Cresce a cada dia, dentro de mim, a certeza de que essa atitude é premeditada e calculada. A velha teoria da conspiração vive me assombrando. E vejo em meus delírios persecutórios, uma grande muralha sendo construída tijolo a tijolo. À medida em que me aproximo dela, vejo que cada tijolo tem uma carinha. Cada um de nós é apenas mais um tijolo no muro.
Sou obrigado a concordar com o Pink Floyd!

WE DONT NEED NO EDUCATION! (assim, errado mesmo...)

Veja o clipe aí em baixo.


quarta-feira, 28 de fevereiro de 2007

TOM WAITS RIDES AGAIN

Há algum tempo, escrevi aqui sobre um lindo e maravilhoso fracasso de público e crítica. O filme "One From the Heart", do Coppola.
Nesse texto, falo muito da trilha do filme, composta e cantada por Tom Waits. Essas canções me impressionaram demais na época e lá eu explico porquê.
Agora, leio em Piauí um artigo contundente sobre o compositor, escrito por Simon Schama, professor da Universidade de Columbia. No artigo, Schama esmiuça em letras, e em detalhes, tudo o que senti apenas ouvindo a voz rouca de Waits naquelas canções. Era tudo o que queria dizer sobre ele e não sabia como.
Simon Schama sintetiza Waits, numa frase memorável: "As ruínas rascantes da voz de Tom Waits nos levam aos recantos mais escondidos da psique americana".
Isso é lindo mas o artigo inteiro precisa ser lido.
Se quiser fazer isso, clique aqui.

Aí em baixo, duas das melhores canções do filme.
Haja fossa!




sábado, 10 de fevereiro de 2007

FAÇA A SUA PARTE! E REZE...

Prometi à minha amiga Andréa N., a linda autora do delicioso In Other Worlds, que iria participar de uma corrente, iniciada no Faça a sua Parte, cujo objetivo é aumentar e difundir a consciência ecológica.
A corrente consiste em divulgar três atitudes ecoconscientes que adotamos em nossas vidas. Publicá-las e passar adiante para, pelo menos, três amigos, de maneira a difundir o tema.
Sou um pouco chato. Ao longo da vida, de queda em queda, fui atingindo um grau muito grande de ceticismo em relação ao gênero humano.
De forma que, a convocação para esse tipo de evento passou a me parecer tão bonita quanto inócua. Admiro a persistência e a esperança de quem se envolve neles. Mas, simplesmente, não acredito.
Sinto-me mal com isso. Essa desesperança é vista com maus olhos. É percebida como uma atitude destrutiva, não colaborativa, como um boicote. É como se eu fosse contra o movimento e estivesse deliberadamente sabotando, com idéias pessimistas e negativas.
Bem, isso não é verdade. É que acredito muito mais na capacidade transformadora da reflexão. Meu espírito, nessas horas, é muito mais científico. A ciência, por natureza, é cética. Só acredita em provas absolutas. E, principalmente, na busca das causas dos fenômenos e não nas suas manifestações mais visíveis.
Assim, prefiro tentar pesquisar os "porquês", acreditando que, conhecendo as causas, poderemos combater melhor seus efeitos.
Por quê o homem aje assim? Por quê teima em destruir o próprio ambiente numa atitude suicida? Pior: genocida. Ouço falar em aquecimento global, efeito estufa, emissão de dióxido de carbono, destruição de florestas e tudo isso há, pelo menos, trinta e cinco anos! Estudei isso no colegial, gente. Isso foi em 1970!!! Por quê, sabendo disso há tanto tempo, ninguém fez nada para deter o processo. Por quê só agora, quando começam a aparecer os primeiros sinais da hecatombe anunciada, passamos a falar - alarmados - disso tudo? Ninguém sabia?
Então, o que acontece? Burrice? Premeditação? Interesses econômicos? Quem ganha com isso? Por quanto tempo? Não haverá ninguém para aproveitar os lucros da devastação, daqui a parcos cem anos!! Na verdade, não haverá lucro, porra nenhuma. Daqui há pouco, muito pouco mesmo, nós - os ecoconscientes - estaremos agonizando com desidratação, fome e câncer - provocado pela radiação solar ou por pesticidas organo-fosforados, ou ainda por carnes e cereais transgênicos - bem ao lado de um ecodestruidor, tão fraco que não consegue levantar a motosserra na sua mão. Todos poeticamente irmanados na mesma dor. E nossas carcaças semi-mortas, ficarão entregues às baratas, aos ratos e aos urubus. Não, nem isso. Só às baratas, que dizem resistir até a guerras nucleares, de tão fortes. Os ratos e urubus estarão apodrecendo ao nosso lado ou boiando afogados na onda gigante do último maremoto.
Essas perguntas são de difícil resposta. Digo por mim, que sou um ignorante. Mas, outros mais inteligentes e com mais informação trazem alguma luz à questão. Contardo Calligaris, psicanalista e colunista da Folha de São Paulo, escreveu em sua coluna da última quinta-feira, uma idéia do que se passa na mente humana, sobre essa questão. Sugiro a todos a leitura integral do artigo, que tem sua versão eletrônica disponível aqui, para os assinantes do jornal ou do provedor UOL.
Para os que não têm esse acesso, resumo suas idéias básicas.
O autor parte da tese, a meu ver correta, de que a solução dos problemas ambientais, depende de uma atitude coletiva. Isso parece óbvio, mas é o grande obstáculo. Vejam o que diz Calligaris:

"Os humanos (sobretudo na modernidade) prosperaram num projeto de exploração e domínio da natureza cujo custo é hoje cobrado. Para corrigir esse projeto, atenuar suas conseqüências e sobreviver, deveríamos agir coletivamente. Ora, acontece que nossa espécie parece incapaz de ações coletivas. À primeira vista, isso é paradoxal.
Progressivamente, ao longo dos séculos, chegamos a perceber qualquer homem como semelhante, por diferente de nós que ele seja. Infelizmente, reconhecer a espécie como grupo ao qual pertencemos (sentir solidariedade com todos os humanos) não implica que sejamos capazes de uma ação coletiva.
Na base de nossa cultura está a idéia de que nosso destino individual é mais importante do que o destino dos grupos dos quais fazemos parte. (grifo meu) Nosso individualismo, aliás, é a condição de nossa solidariedade: os outros são nossos semelhantes porque conseguimos enxergá-los como indivíduos, deixando de lado as diferenças entre os grupos aos quais cada um pertence. Provavelmente, trata-se de uma conseqüência do fundo cristão da cultura ocidental moderna: somos todos irmãos, mas a salvação (que é o que importa) decide-se um por um. Em suma, agir contra o interesse do indivíduo, mesmo que para o interesse do grupo, não é do nosso feitio. (grifo meu)
Resumo do problema: hoje, nossa espécie precisa agir coletivamente, mas a própria cultura que, até agora, sustentou seu caminho torna esse tipo de ação difícil ou impossível."

A observação mais prosaica parece comprovar o que Calligaris diz no seu texto. É no tráfego urbano que mais dependemos da ação coletiva. De que adianta eu transitar corretamente na faixa da direita, em velocidade permitida e na correta mão de direção, se os demais não fizerem a mesma coisa. No entanto, um humano dentro de seu carro, passa a ser o emblema mais bem acabado da individualidade egocêntrica e perversa. Justamente na situação em que ele deveria agir de maneira mais coletiva possível, para que o grupo dos que estão dirigindo - e do qual faz parte - tenha um mínimo de segurança e ordem. Lembro de um desenho que passava na televisão da minha infância. Era narrado em off e mostrava o Pateta, com aquela cara de sonso e bocó, caminhando lentamente para o carro. Ele entra e, no exato instante em que vira a chave na ignição, sua face se transforma: adquire uma expressão enlouquecida e diabólica, com um sorriso sarcástico. Arranca cantando os pneus e sai por aí fazendo barbaridades. O locutor vai didaticamente mostrando o que é certo e errado, ilustrado por uma sucessão de atitudes individualistas do Pateta-Monstro. Depois de provocar mil acidentes fatais com sua falta de educação e de espírito coletivo, ao sair do carro, volta a ter sua cara de pateta, sonso e sonolento. A mais inofensiva das criaturas.
É isso o que somos: monstros individualistas, travestidos de cidadãos conscientes. O resto é hipocrisia. E, digo mais. Só aceitando esse nosso lado escuro (ou seja, reconhecendo a causa), sabendo que ele existe em cada um de nós, é que poderemos controlá-lo (vejam que não disse eliminá-lo) e tentar uma atitude que beneficie o grupo, mesmo que nos prejudique como indivíduos.
Mas não se iludam. Isso só vai acontecer quando as águas baterem em nossos umbigos. Não no sentido figurado. Só quando a última geleira derreter. Só quando o Empire State, a Torre Eiffel, a Esfinge, o Palácio de Buckingham e o Pão de Açúcar estiverem submersos. E quando as dunas escaldantes da floresta Amazônica estiverem sendo percorridas por alguns camelos sedentos, à procura de um improvável oásis.
É isso. Só nos moveremos em uma atitude coletiva realmente transformadora, se nossa sobrevivência individual ficar ameaçada. Nunca por altruísmo ou para a preservação da nossa espécie. Mas então, pode ser tarde.
Contardo Calligaris continua:

" Não sou totalmente pessimista. [...] ...quem sabe a mudança climática nos obrigue (grifo meu) mesmo a transformar nossa cultura."

Só tomaremos uma atitude coletiva, obrigados!
Que o meu pessimismo e a minha amargura provoquem em vocês tal indignação que, ao comentar minha falta de fé no movimento, consigam difundir mais ainda as idéias maravilhosas que vocês têm sobre a preservação ambiental. Essa é a contribuição que posso dar.

Ah! A propósito: separo lixo reciclável, não desperdiço comida, não fumo e sou um cidadão respeitador da lei.

terça-feira, 6 de fevereiro de 2007

CAMINHOS E ENCRUZILHADAS

Há quem acredite que o que somos hoje é resultado da somatória das escolhas que fizemos ao longo da vida. Dizem até que, no astral, escolhemos deliberadamente nosso casal de pais .
Sinceramente não sei dizer se escolhi meu pai e minha mãe, mas, seguramente, eles tiveram grande influência no que sou hoje. Para o bem e para o mal.
Com temperamento dócil e natureza pacífica, sou o único filho de um pai centralizador e voluntarioso e mãe submissa e super-protetora. Guardem estas informações, para ler o resto da história.
Quanto à afirmação de que cada escolha minha determinou "a dor e a delícia" de ser o que sou, tomo-a com reservas. Que tipo de escolha qualquer pessoa pode fazer aos seis meses, por exemplo? Chorar ao primeiro sinal de fome ou dar um tempinho pra mamãe extenuada? Fazer cocô agora ou esperar trocarem a fralda, pra irritar? Aos cinco anos não escolhemos nem que roupa vestir.

Do que me lembro, a primeira escolha realmente importante e que poderia ter dado um rumo completamente diferente à minha vida, foi feita nos meus 13 anos. Mesmo assim, não foi exatamente uma escolha; foi uma "não escolha", o que pode ser pior.

Esta é uma idade bem conturbada. Repleta de mudanças interiores estrondosas. Nesse ambiente de guerra, com bombas explodindo dentro de mim, meu pai "escolheu" que eu deveria estudar em um colégio particular de ponta, pra me preparar melhor para a vida. Isso dentro do conceito dele do que seria "preparar-se melhor" e de que tipo de vida ele "escolhera" para mim.

Acabara de enfrentar uma seleção pior do que qualquer vestibular para ser admitido no melhor colégio público da região. Lembro até do tamanho da encrenca; os números ficaram gravados na minha mente: cinco mil candidatos para cem vagas. Eu teria de eliminar cinqüenta caras para ter o direito de sentar em uma carteira velha e apertada, de madeira dura, e ficar cinco horas por dia ouvindo preleções sobre assuntos totalmente desinteressantes, feitas por professores cansados e nervosos que recebiam um salário de subsistência e detestavam crianças dessa idade.
Para isso, tinha passado o longo e tenebroso ano anterior em um cursinho preparatório que garantia aos pais, sucesso absoluto no tal exame de admissão. Cumpria o que prometia. Seus cem alunos preenchiam de A a Z as cem vagas existentes. Para atingir essa excelência de resultados, montavam uma espécie de campo de concentração para menores, onde o castigo físico e a humilhação eram usados sistematicamente como instrumentos de "estímulo ao estudo", com ciência e anuência explícita dos pais. Sim, eles eram avisados de que levaríamos porrada.

Como podem ver, até agora não fiz nenhuma escolha e aderi incondicionalmente às escolhas feitas por outros.
Depois de todo esse sacrifício e da tamanha vitória recém conquistada, deveria abandonar tudo, inclusive meus amigos, com quem jogava bola nos campinhos de terra batida, brincava de guerra de mamona e fazia leitura coletiva e clandestina dos catecismos do Carlos Zéfiro; deveria largar tudo isso, para percorrer diariamente 50 quilômetros - o que implicava em acordar duas horas mais cedo e chegar duas horas mais tarde - para estudar em um colégio forte, de tradição, conviver em um ambiente de colegas hostis (pelo menos é o que eu achava) e passar o resto das minhas poucas horas estudando um volume enciclopédico de matérias, até que conseguisse passar no próximo vestibular.

Para ser admitido nesse colégio, era preciso passar por um exame de conhecimentos e outro de avaliação psicológica. Este último, era aquele famoso teste dos borrões (hoje sei que se chama Teste de Rorschach) , no qual, umas pranchas com borrões de formas abstratas são apresentadas ao candidato e ele deve dizer o que vê em cada uma delas. A interpretação do teste parece ser difícil e exigir grande preparo do avaliador, mas, basicamente, consiste em julgar a personalidade do indivíduo por aquilo que ele consegue "ver" nos borrões. Lembro de que não via nada além do borrão, mas fazia um esforço supremo pra dizer alguma coisa, porque pensava: "Se eu não vir nada aqui, esse cara não vai me deixar passar no teste". Por mais que me esforçasse para ser criativo, só consegui ver duas coisas em todas as pranchas: morcegos e... borboletas. Até hoje não sei o que isso significa. Será que borboletas indicam tendências homossexuais ou isso aconteceria se eu tivesse visto, por exemplo, libélulas? Serão os morcegos projeções de uma psique doentia e obscura, com tendências homicidas ou apenas o resultado contaminado pelo gibi do Batman que eu viera lendo no caminho? O fato é que não devem ter visto nada muito comprometedor, porque, depois de uma curta espera, nos mandaram ir para a sala de matrícula.

Foi então que aconteceu o momento mágico. Não sei se foram os borrões ou a busca desesperada para ver qualquer coisa (ou me ver) neles, mas algo muito forte se moveu dentro de mim. Uma espécie de terremoto interno. Esse movimento fez abrir à minha frente a primeira das milhares de encruzilhadas, atalhos e bifurcações que a vida apresenta, para que a gente escolha qual dos caminhos seguir. Sem nenhuma indicação de onde vai dar, sem mapa e sem GPS. De modo que a gente nunca sabe - nem nunca vai saber - se aquela era mesmo a melhor escolha. Perverso, não?

Nessa idade eu já adorava fotografia e fazia meus ensaios com uma Kodak Instamatic. Por ironia, meu pai tinha me levado a visitar, na semana anterior, um dos maiores - talvez o maior - estúdio fotográfico publicitário de São Paulo, na época. Era uma verdadeira mansão. Seu galpão de fundo infinito comportava até vários caminhões. O laboratório e os equipamentos eram o que existia de mais avançado e sofisticado: Ampliadores Durst (vários), câmeras Hasselblads (umas cinco), com todos os tipos de lente, duas Linhoff de fole para cromos de até 9 x 12. Todos os meus sonhos estavam ali.

O dono do estúdio era um catalão chamado Marcel Giró. Quando era fotógrafo amador, fizera as fotos do casamento dos meus pais, por amizade. Morava numa cidadezinha do interior, onde tinha uma pequena indústria. Na crise que se seguiu à queda da bolsa de Nova York, em 1929, perdeu tudo o que tinha, menos a sua Rolleyflex de lente dupla. Sem perspectiva, veio para São Paulo e começou a trabalhar com a única coisa que sabia fazer e com a única ferramenta que lhe tinha sobrado: sua Rolley. Entre os anos 50 e começo dos 70, num ambiente de franco crescimento econômico e uma mudança radical na cultura da publicidade, onde a imagem passou a ser o grande instrumento de comunicação, Giró, talentosíssimo e inteligentíssimo, pegou a onda e construiu o que havia de melhor em foto publicitária no país. Além disso, foi um fotógrafo de arte respeitado, tendo ganho vários prêmios internacionais.
Sentei em uma cadeira na sala de matrícula, ao lado do meu pai que conferia os documentos exigidos. Fiquei uns instantes com o olhar perdido. Quem me visse, diria que eu estava "viajando". Mas, a visão que eu tinha era clara: dois caminhos, dos quais eu só via os primeiros cinco metros: um me levaria à mesa da secretária, logo ali em frente; o outro me levaria aos meus sonhos. Aquele movimento interno continuava tão forte, que, pela primeira vez, ousei contestar uma "escolha" do meu pai. Timidamente, quase já me desculpando, virei para ele e disse:

- Pai... eu não quero...
Ele desviou os olhos da papelada:
- Não quer o quê?
- Não quero me matricular.
- Como assim?
- Não quero vir pra esse colégio. Eu quero fazer fotografia. Quero ir trabalhar com o Giró.
Estas três últimas frases sairam num jato só. Rápidas. Meu coração batia acelerado e forte. O golpe, fulminante e violento, estonteou o velho. Ficou olhando para os papéis da matrícula, sem dizer nada, o rosto impassível. Eu olhava para sua face, tentando adivinhar de que lado viria o tapa. Ao mesmo tempo, sentia uma expectativa alegre, como quem torce pra ouvir seu número num sorteio. Não sei quanto tempo durou este silêncio. A reação do meu pai foi a menos esperada. Quando falou, as palavras sairam baixas e calmas.
- Bom, isso é uma coisa que você tem de decidir agora. Não posso pagar essa matrícula cara e assinar o contrato se você não vai ficar aqui.
Como? Eu, decidir? Eu podia decidir? Podia escolher? Que história é essa? Enquanto eu pensava nisso, aturdido, ele acrescentou.
- Só que tem uma coisa. Deixar de estudar, você não vai. Vai ter que estudar à noite. Quer ir trabalhar com o Giró, hoje mesmo eu falo com ele. Ele deve estar precisando de um garoto pra varrer o estúdio ou ajudar a montar os tripés.
Eu ouvia, sem retrucar.
- Você não está pensando que vai trabalhar naquele estúdio como fotógrafo, né? No máximo, vai ficar como auxiliar de laboratório ou contínuo pra servir café e ir ao banco. Com o tempo, talvez...
Mas é muito difícil. Ele já tem equipe, como você mesmo viu. Contou quantas pessoas preparadas trabalham naquele estúdio? Que chance você acha que tem? E outra. Eu ia pagar uma perua para você vir para o colégio. Mas, se você for trabalhar, vai ter que pegar trem e ônibus. A perua a gente racha com os outros pais. Mas não tem perua para o estúdio, né?
À medida em que ele falava, aquele movimento interno foi cessando. Meu coração retomou o ritmo normal. A visão onírica da minha vida como fotógrafo foi se esvanecendo e os dois caminhos foram se tornando um só. Levantei e caminhei em direção à mesa da secretária. Meu pai me seguiu.

Como disse, foi uma "não escolha". Neguei meu sonho. Não paguei pra ver. Minha "não escolha", naquele momento determinou um caminho para mim. Não há julgamento crítico, nisso. Não tinha, então, estrutura interna pra comprar a briga. Tive medo do que poderia acontecer após a primeira curva. Fiz uma fantasia de que, se não desse certo, estaria sozinho e não poderia voltar. Optei pela segurança. Fiz mal? Fiz bem? Como disse, nunca vou saber.
Porém, anos depois, soube de fatos que me deram uma pista de que aquele caminho do estúdio do Giró, poderia ter sido um bom caminho.

Naquele mesmo ano, ou um pouco depois, veio para o Brasil um garoto catalão, nascido em Barcelona . Chamava-se José. Deviam ser amigas, já na Catalunha, a família Giró e a família de José. O fato é que ele, menino ainda, quase da minha idade, foi trabalhar no estúdio que me fizera sonhar. Não sei se varreu o chão, se limpou banheiro, se montou e desmontou equipamentos, se ficou inalando ácido acético dentro da câmara de revelação ou se foi ao banco pagar as contas do chefe. Cumpriu seu caminho e ficou lá aprendendo. Enquanto isso, eu também cumpria o meu.

O menino José hoje é mais conhecido pelo seu nome artístico: J.R. Duran.

segunda-feira, 29 de janeiro de 2007

SÃO VITO E O MERCADO


Este edifício do lado esquerdo, com detalhes na primeira foto do lado direito, abaixo (clique para ampliar), é um dos mais conhecidos de São Paulo. Tão conhecido quanto o Edifício Copan, o Edifício Itália, o Martinelli e o Conjunto Nacional. É uma referência. Ou, talvez, uma "anti-referência". Chama-se Edifício São Vito e é o mais perfeito emblema da deterioração da cidade. Ou, pelo menos do centro.
Construído em 1959, ao lado do Parque D. Pedro II, tem 25 andares, com 624 apartamentos e chegou a abrigar três mil moradores. Seguiu o inexorável caminho da ruína da metrópole, até se transformar numa favela vertical, ocupado inclusive por traficantes. É o equivalente dos morros do Rio; nem a polícia entrava.
Em 2004, um projeto de revitalização do centro cogitou recuperá-lo e foi, então, desapropriado e interditado. Permaneceu assim, até que o projeto foi abandonado, conforme se sucediam as novas administrações. Esta lá, desse jeito, até hoje.
Fala-se em sua demolição, para dar lugar a uma praça. Enquanto isso, fica assim, expondo a alma de uma cidade cheia de cicatrizes. Ao seu lado, fica outro edifício marcado pelas pichações. Parece um corpo cheio de tatuagens.
Ironicamente, estes dois cadáveres, decompondo-se a céu aberto, ficam bem em frente (mais uma vez o clichê da cidade dos contrastes) a um dos prédios mais bonitos daqui. Este é um velho senhor. Em 25 de janeiro último, aniversário da cidade, completou 73 anos. Mas goza de boa saúde e recentemente fez uma "plástica" que lhe devolveu a jovialidade. É o Mercado Municipal.
Foi projetado pelo famoso arquiteto Ramos de Azevedo, em 1924, que tem presença marcante nos edifícios importantes da cidade: são dele o Teatro Municipal, a Pinacoteca do Estado (já restaurada e linda) e o Prédio Central dos Correios e Telégrafos (em recuperação), entre outros.
O Mercadão, como é conhecido, reconquistou sua nobreza e caiu no carinho dos paulistanos. Além das bancas que vendem os melhores artigos, onde até chefes de cozinha vão buscar seus temperos e segredos, foi construído um mezanino para onde "subiram" os bares que existiam no piso térreo. Tem até um restaurante japonês. Mas os quitutes mais famosos são o bolinho de bacalhau e o sanduíche de mortadela. É um passeio bem legal.
Clique na foto abaixo para conhecer um pouco do interior do Mercadão e ver como ele é bonito e charmoso.

quarta-feira, 24 de janeiro de 2007

FALANDO UM POUCO DE MIM




Comecei este espaço, falando intencionalmente de coisas banais, assuntos, digamos, externos, que não comprometiam, nem dependiam do meu estado de espírito. Foi uma atitude deliberada e coerente com essa abordagem impessoal e distanciada dos temas. Quanto menos confessional e mais universal, melhor.
Valia também a ficção, pura ou misturada com a realidade, num exercício criativo. Fiz, também, a proposição de ser leve, bem humorado, mesmo eventualmente tratando de temas dramáticos.
A estrutura gráfica, eu a pretendia a mais multimídia possível, seguindo a tendência do veículo, por natureza e vocação.
Durante alguns meses , este espírito foi alcançado.
Mas, a partir de um determinado ponto, minha alma começou a exigir participação nessa festa. E, por mais que tentasse ser fiel às minhas propostas iniciais, os textos começaram a assumir um tom mais amargo e melancólico.
Foi assim que começaram a aparecer coisas como as que escrevi em "Fica Comigo", "Quero Colo", "Promoção: abraços grátis", culminando com o último "Pedidos Para Depois do Natal".
A partir deste, escrito às vésperas do Natal - e cuja atmosfera é de uma amargura imensa - não consegui mais escrever uma linha sequer. Isso gerou em mim uma angústia profunda. Quanto mais eu tentava, menos conseguia. Quanto menos conseguia, mais a angústia se aprofundava. Alguma coisa parecida - e acho que não é só parecida, mas é a mesma coisa - com aquela situação em que um homem brocha e fica tentando obsessivamente ter uma ereção. Quanto mais ele tenta, mais longe vai ficando a possibilidade de conseguir. Essa é a hora de relaxar e não gozar.
Procura o Let It Be, dos Beatles - de preferência a versão "naked" - põe pra tocar e "deixa estar"...
Refletindo sobre isso, na tentativa de entender o fenômeno, continuei não entendendo nada, mas fiz algumas observações curiosas.
A mudança de tom nos textos, começou logo após meu aniversário. Falam de um tal de "inferno astral", uma espécie de TPM espiritual que antecede o período astrológico do nascimento, mas que, como a TPM, e como o próprio nome diz, deveria ocorrer antes da data e não depois, como aconteceu. A coisa foi se intensificando nos exatos 30 dias que separam meu natalício do Natal. O último texto - e o mais ácido de todos - foi escrito no dia 23 de dezembro e depois disso nada mais aconteceu.
É como se, a partir do aniversário, meu conteúdo mais interno e verdadeiro aumentasse de tal forma sua pressão para se manifestar, que ficou impossível contê-lo. Não por acaso, o único texto ficcional que escrevi neste período, tratava de um personagem que escrevia sob um pseudônimo ,o qual toma vida própria e se volta contra o autor real.
Depois da catarse, entrei num estado de ressaca, um bode, uma rebordosa idêntica àquela provocada pela bebedeira. Só de cheirar o uísque a dor de cabeça e a náusea voltam.
Passei estes dias, entre o Natal e a minha volta ao trabalho, num estado meio catatônico. Não conseguia ler, não conseguia pensar e, portanto, não conseguia escrever. Uns poucos "insights" espoucavam como flashes, mas eram exatamente isso: tão fugazes quanto a luz e sumiam imediatamente.
Por ironia, tinha todo o tempo do mundo para escrever, elaborar a idéia, lapidar o texto...mas um vazio, um buraco negro, um fundo infinito, tomavam conta da minha cabeça.
Ao mesmo tempo - pra piorar - uma preguiça física me mantinha deitado no sofá, controle remoto na mão, zapeando a uma velocidade de dois canais por segundo, com o olhar perdido e a boca aberta, o que me dava um fácies de imbecilidade. A aparência era um espelho perfeito de como estava me sentindo.
Estranhamente, exatos 30 dias após minha última publicação, volto a publicar. E não pude fugir do tema. É, talvez, uma coisa de encarar o trauma. Não fingir que não existe. Falar sobre ele, talvez seja a única forma de destravá-lo.
Desde já, peço desculpas aos amigos que fiz aqui, não só pela ausência até então não justificada, mas pela desinteressante prestação de contas que, de resto, vale mais para mim mesmo do que para vocês.
O lado bom da coisa - e parece que ele sempre existe - a notícia boa, é que os poucos loucos e loucas carinhosos que freqüentam esta praça, estes vizinhos virtuais, tão próximos e, ao mesmo tempo tão impalpáveis, tão invisíveis, mas cujo carinho é bem real, bem palpável e bem visível, estes amigos e amigas que fazem com a palavra escrita e com uns poucos ícones, afagos tão suaves quanto suas mãos poderiam fazer - estas pessoas estiveram comigo este tempo todo. Manifestaram sua saudade, sua preocupação, sua solidariedade, sua vontade de estar junto. Ao mesmo tempo, tiveram a generosidade de esperar e souberam dizer "estamos aqui; estaremos aqui quando você voltar". E até levantaram um brinde, com receita especialmente formulada para curar a falta de energia. Quem quiser a receita, clique aqui.
Isso tudo pode parecer besteira para alguns. Há quem deteste computadores, internet, blogues, correio eletrônico. Há quem zombe de quem se envolve com isso. Há quem duvide da possibilidade de se estabelecer relações afetivas verdadeiras, virtualmente. Respeito-as.
A comunicação virtual subverte a ordem das coisas. Nossos instintos atávicos clamam desesperadamente por um contato visual, um cheiro, um toque, o timbre de uma voz. É assim que fazemos desde que a raça ocupou o planeta. Os sentidos indicam se gostamos ou não, se queremos manter contato ou não.
Contudo, para nós da raça humana, isso é apenas o começo. Apenas estabelece o "link" inicial. Depois de algum tempo, tudo passa a ser o que realmente é: acessório. E o essencial, o diálogo de idéias, a busca das afinidades e idiossincrasias, o que existe de enriquecedor no outro, a visão da alma do interlocutor e seu caráter, estes valores passam a exercer o papel de indicadores. E daí pra frente é isso que interessa.
No contato virtual esta ordem é invertida. Conhecemos primeiro a essência. Fica faltando o acessório. Mas, não é nada mais do que isso: acessório. Mesmo porque, estamos falando de amizades; relações com pessoas afins que se gostam mais ou menos e cuja convivência permite o enriquecimento de cada um através da livre circulação de... idéias. Idéias sem cheiro, sem cor, sem olhos azuis, sem som. Passamos a gostar uns dos outros pelas idéias, pela inteligência, pela sensibilidade, pela criatividade, pelo humor.
Para o encontro amoroso, talvez haja outra dinâmica. Mas isso é assunto para outro texto.
A foto que abre este artigo foi a primeira (e única, até agora) que fiz em 2007.
Eu a escolhi, pelas circunstâncias. Foi feita no litoral, em um dia em que a previsão meteorológica era de tempestades e chuva forte, o que aliás vinha ocorrendo há mais de quinze dias. É um janeiro que já bate recordes pluviométricos. Fui para a praia, atendendo um compromisso que podia até ser adiado pela expectativa do dilúvio. De fato, o dia passou com nuvens negras e com o horizonte pesado. Contudo, ao cair da tarde, uma brisa começou a soprar e a cortina de nuvens negras começou a se abrir e foi abrindo, abrindo até entregar uma noite completamente estrelada.
No momento da foto, é possível ver a camada de nuvens se dispersando, mostrando fragmentos do céu azul e um sol poente tingindo o horizonte de amarelo e vermelho.
A cena não me prendeu apenas pela beleza estética. Achei aquela visão metafórica do que me ia na alma. E vi aquilo como um bom presságio de que as tempestades não duram pra sempre. Mesmo as da alma que fica escurecida pelas nuvens da melancolia.
Fiz a foto e, naquele mesmo momento, prometi que seria publicada no primeiro artigo que escrevesse no novo ano, como uma imagem e uma metáfora de que a luz vai sempre aparecer. É apenas mais um dos infindáveis ciclos que a vida e a natureza comandam.


Obrigado a todos os que estiveram aqui. Não vou nomeá-los. Vocês sabem quem são.