domingo, 3 de setembro de 2006

OUTONOS

No hemisfério sul, o Outono é uma estação virtual; praticamente não existe. É caracterizada por dias limpos sem nuvens, céu azul intenso e sol brilhante. Nessa época, seus raios atingem a atmosfera em ângulo agudo, gerando uma luz oblíqua que ilumina os objetos meio de lado, produzindo sombras que destacam os contornos e os relevos, além de deixar as cores mais saturadas. É muito bonito! Além disso, as temperaturas ficam amenas. É a estação de que mais gosto.

Porém, estranhamente, tenho uma fascinação especial pelo Outono do hemisfério norte, embora nunca tenha visitado nenhum país de lá, nesta época do ano. O Outono de que gosto é o que vejo nos filmes e nas fotografias, com aquela luz maravilhosa, frio intenso mas suportável, que convida ao vinho ou à lareira ou aos dois. E as lindas cores do Outono setentrional!!!!! Principalmente das folhas; vão do amarelo claro esmaecido ao marrom avermelhado intenso, passando por todas as nuances intermediárias.

O que me intriga é eu gostar desse ambiente, sem nunca ter sido envolvido de verdade por ele. Ou será que já estive lá em outra existência? Digo isso porque o sentimento que tenho sobre este Outono é de estranha nostalgia. É como se já tivesse passado por isso.

No Brasil, nossos ciclos são medidos pelo ano civil. Usamos como referência, o final do ano, o Natal, o Carnaval, os feriados, as datas. É uma medida de tempo que vem do calendário gregoriano: uma convenção. Os habitantes do norte, ao contrário, utilizam as estações, muito bem marcadas lá. Assim, eles dizem: "no Verão vou a tal lugar", "encontrei-a no Outono passado", "quando a Primavera chegar vou fazer tal coisa". Essa maneira de "medir" ou estabelecer uma referência temporal pelas estações utiliza um ciclo natural. Quem sinaliza o passar do tempo são os fenômenos da Natureza: a florescência das plantas, o comportamento dos animais, a luz, a duração dos dias e das noites... Cada estação tem uma "personalidade", um perfil muito próprio e diferente da sua antecessora ou da que a segue. E, acredito, esse "jeito" de cada estação, acaba por induzir um perfil nas pessoas, de tal forma que elas mudam sua maneira de ser e se comportar. No Verão, são de um jeito; no Outono, assumem outra dinâmica. Coisas que não as atingem na Primavera, podem mobilizar grande emoção se ocorrerem no Inverno.

Como baseia-se num ciclo natural e não numa contagem de tempo inventada, essa forma de relacionar-se com o tempo é muito mais verdadeira para o homem, de resto um ser atavicamente ligado à Natureza. Penso que a consciência do fluir do tempo através dessa medida encontra muito mais eco na alma humana, é muito mais harmoniosa com o tempo interno - o tempo necessário para processarmos mudanças interiores importantes. Talvez por não agirmos assim, tenhamos sempre uma sensação de estranhamento com o passar do tempo. Sempre achamos que foi rápido demais ou longo demais. Muitas vezes "agendamos" tarefas ou acontecimentos das nossas vidas que acabam ocorrendo inoportunamente. Quando chega a hora daquela viagem tão esperada, "precisamos" ir, mas não estamos no momento certo. Aquele tempo não corresponde ao nosso tempo interno. Eu, pelo menos, brigo demais com o tempo. Muitas vezes sou obrigado a fazer coisas para as quais não me sinto preparado. Em outras, desejo ardentemente fazer coisas que ainda não são possíveis. Há uma permanente impressão de inoportunidade.

Ademais, percebo que o ato de fecharmos os ciclos apenas uma vez ao ano, como acontece no sul - sem as manifestações da Natureza que acompanham as mudanças de estação no hemisfério norte - é insuficiente para nos equilibrarmos.

Bobagem ou não, ainda vou dar um jeito de passar um Outono inteiro contemplando as cores das folhas lá do norte pincelando o chão. Só espero que haja tempo e que isso não ocorra já no Outono da minha vida.

5 comentários:

Andréa N. disse...

É verdade, Paulo, aqui nos baseamos nas estações pra tudo- começo das aulas, viagens de férias... E há também as alergias, que boa parte da população sofre duas vezes ao ano- quando a primavera está entrando e quando o outono está pra começar. O problema não é só a mudança de temperatura, mas o pólen que cai das árvores, também. Eu não sofro disso, felizmente. Desde que mudei pra cá minha alergia a ácaros - que não era fraquinha - sumiu. Não é louco isso? E tem também o lance do horário, pelo menos aqui em Nova York: "spring ahead, fall back". Esse ano cai no dia 29 de outubro. Os relógios são atrasados em uma hora, assim não fica tão escuro de manhã, no inverno. Mas escurece rapidinho. Em dezembro e janeiro, por exmeplo, às 4 e meia da tarde já é noite.
Quanto à canção da Ella, não leve ao pé da letra. Toda mudança de estação me inspira mais com uma canção que seja a cara de Nova York, é só. :)

Paulo de Tarso disse...

Andréa
Talvez os ácaros do primeiro mundo sejam mais civilizados e não fiquem importunando os humanos... :-).
Quanto à canção ser a cara de N.Y., todas do Cole Porter parecem ter a atmosfera novaiorquina. Penso que é porque Porter compos muito para a Broadway. Mas, o irônico é que, justamente esta, que você escolheu para Nova York (Let´s do It), foi escrita para um musical chamado Paris . Hehehe...

Andréa N. disse...

Oops! Hehe...

M. disse...

Oi, Paulo. Na minha experiência de 4 estações no Reino Unido, percebi muito bem o que é ter a vida, as atividades, o astral, o humor, pautados pelo tempo. É bem isso que vc falou mesmo. E eu ando sentindo falta dos ciclos trimestrais. E de outras coisinhas do Hemisfério Norte também...rsrsrs

Paulo de Tarso disse...

É, Ma...
Quem foi e se identificou com aquilo tudo como você, deve mesmo ficar se sentindo estrangeira no próprio país. E o nosso nunca esteve tão ruim, né? O pioe é que perdem-se gerações inteiras (as nossas!!!) até construir algo habitável...