quarta-feira, 27 de setembro de 2006

MÃO DE OBRA TEMPORÁRIA

Olhou disfarçando... Tentava ser discreto. Aquele olhar desejoso, babão, não combinava com a sua posição. Ele era o "VP", "o cara", o inatingível, o "ninguém consegue nem chegar perto dele"... Mas como era difícil disfarçar...
Uma secretária temporária...! Não, não tinha esse tipo de preconceito. Esse não. Ela era subalterna e, claro, não era rica. Mas, e daí? Bom, tem aquele negócio de "assédio sexual". Lembrou do filme. A Demi Moore, gostosíssima, tentando abrir a braguilha do Michael Douglas e ele repetindo: "No...No...No...". Justamente o Michael Douglas que, diziam, tinha se internado pra tratar de "sexualidade compulsiva". Claro, Tom Sanders, o personagem, é que dizia não. Ele mesmo, o ator, devia estar gritando por dentro: "Yes...Yes...Yes...!!! Divertiu-se com a idéia. E lembrou outra vez do assédio no filme. A advogada dizendo: "Sexual harrassment is not about sex. It is about power!" O assédio era uma expressão de poder. Ele - o todo-poderoso - usando este poder para obter favores sexuais de uma subalterna. Isso dava processo feio. E, pior que o processo, acabava com a carreira dele.
Esqueceu disso na mesma hora em que ela inclinou o tronco pra apanhar a caneta. A blusa abriu o decote e mostrou os seios perfeitos, comprimidos por um meia-taça preto. Quando levantou, seus olhos viram os dele, fixos e vidrados no seu colo. Instintivamente levou a mão ao botão da blusa e tentou fechá-la sem sucesso. Ao mesmo tempo, ele desviou o olhar para a janela e comentou qualquer coisa sobre o tempo.
Como era difícil resistir ao desejo por aquela mulher! Ela tinha uma mistura explosiva de inocência e sensualidade. O sorriso de uma criança, franco e brincalhão, mas o olhar lascivo de uma capa da Playboy. Um olhar que disparava fagulhas atingindo da pele até o sexo. Uma ondulação no caminhar. Uma coisa qualquer de magnetismo. Uma discrição tímida que provocava mais ainda a vontade de chegar perto. Porém, o mais difícil era resistir ao perfume. Não era perfume; era o cheiro dela. Um cheiro de mato, de terra molhada, um cheiro meio úmido e selvagem. Aquele cheiro drogava o cara. Aquela essência penetrava narina adentro até o cérebro e liberava todos os tipos de mediadores neuro-químicos do tesão: aquele tesão que entorpece a razão e deixa o cara irresponsável pelos seus atos, inclusive o ato sexual. Apesar de tudo, ele reprimia. Mas como era difícil!
A moça tinha sido colocada no lugar da D. Neuza, sua assistente há 16 anos, senhora solteirona de uma eficiência germânica. Fora preciso dar-lhe férias e o RH mandou a mocinha. Já no primeiro contato, sentira uma sensação esquisita. Chamou pelo interfone, com aquele tom de comando que usava com todos. Quando ela entrou na sala, ele demorou pra tirar os olhos do relatório e quando o fez, a primeira coisa que viu foram os saltos altos. Foi levantando o olhar vagarosamente. O "travelling" foi revelando aos poucos um corpo esguio, muito alongado, de porte elegantíssimo. Vestia uma saia na altura dos joelhos presa, pela cintura estreita, a um contorno de quadris volumosos mas em harmonia com o resto do corpo. Os seios eram também fartos, mas sem exageros e a linha dos ombros, muito largos, de perfil arredondado, dava-lhe uma nobreza impressionante na silhueta. Porém, o que chamou sua atenção de forma definitiva foi o desenho do pescoço. Aquilo realmente o impressionou: era muito alongado, seguindo o padrão do resto do corpo, mas também largo, de estrutura forte. Como uma pilastra sólida e firme, parecia tirado de um quadro de Modigliani. Sustentava um rosto de desenho quadrado, mas delicado, com uma linha bem marcada e ângulos mandibulares salientes. O cabelo curto, deixava a nuca totalmente aparente. Quando ela se virava para sair, os olhos dele se fixavam justamente ali e geravam todas as fantasias possíveis.
Precisava de alguns momentos para voltar a se concentrar no trabalho e muitas vezes durante o dia, surpreendia-se desatento, olhando para o nada, imaginando coisas. Passou a chamá-la pelos motivos mais fúteis. "Fernanda, poderia por favor trazer um clipe de papel?" "Fernanda, tem um grampeador aí?" Qualquer coisa que a fizesse entrar na sala. Começou a ficar preocupado. Nunca agira daquela maneira. Um dia o Tavares, diretor financeiro, comentou: "Mas essa sua secretária é gostosa, hein". Olhou com ódio para ele. Onde já se viu, fazer esse tipo de comentário. Deve ter mostrado isso, porque o Tavares abaixou a cabeça e ficou com cara de quem não entendeu nada. Eles tinham uma relação amigável e até íntima. Ficou mais irritado ainda por perceber que, com aquele comportamento, dava a maior bandeira. Mas, como resistir?
Chegou à conclusão de que estava pisando em terreno perigoso. Não era mais criança. Achou melhor trocar a moça por outra temporária. "Fernanda, por favor mande a Dominique do RH, vir até a minha sala." Quando a diretora entrou, pediu que ela substituisse a funcionária. "Por quê, Gustavo? Ela não está dando conta?" "Não, não é isso... é que... preciso de alguém com mais... experiência..." "Mas, Gustavo, que temporária vai vir com experiência? Ela fez alguma coisa errada?" "Não , não". "Então. Só falta uma semana pra D. Neuza voltar. Aí tudo se normaliza".
Só nessa hora deu-se conta de que Fernanda ía embora e talvez nunca mais a visse. Esse pensamento deixou-o apavorado. Concordou e dispensou a diretora. Chamou a secretária e aí cometeu o maior erro da sua vida. "Fernanda, preciso de você para terminar a apresentação da reunião de quinta." "Pois não, Dr. Gustavo"
No final do dia, Fernanda entrou na sala: "Dr. Gustavo, estou à disposição." "Você sabe lidar com o PowerPoint?" "Sei, sim". "Então, por favor, sente aqui", e indicou sua própria cadeira. A garota deu a volta à mesa e sentou-se. Estava com uma saia preta, mais curta do que o que normalmente usava de forma que, ao sentar, deixou aparecer mais de um palmo de coxa. Ajeitou-se na frente da tela e abriu o programa. Gustavo inclinou-se por trás dela para acompanhar o trabalho e quando chegou próximo à sua nuca, uma onda de cheiro de mato o envolveu. Olhou para baixo e viu aquele pescoço. Da perspectiva em que estava, via perfeitamente o decote entreaberto e os seios redondos. Falou alguma coisa sobre a apresentação, bem próximo do ouvido dela, quase sussurrando. Fernanda virou o rosto para ele e seus olhos se encontraram a apenas dez centímetros de distância. Foi o sinal. Ele puxou sua nuca com a mão direita e os lábios se tocaram. Moles, quentes e úmidos. Fernanda não resistiu; pelo contrário, abandonou-se. Levantou-se lentamente sem descolar os lábios dos dele e passou o braço esquerdo por trás dos seus ombros, enquanto a mão direita tocava a coxa e iniciava um movimento ascendente, lento e suave. Um arrepio percorreu sua espinha e um formigamento atingiu seu sexo. Entregou-se...
Uma semana depois, quando saiu da reunião extraordinária que tratara da sua demissão, passou pela ante-sala do que fora seu escritório. Fernanda estava lá, linda, atenta ao que escrevia no computador, agora efetivada no cargo de secretária executiva do novo vice-presidente, o Tavares, o antigo diretor financeiro. Aquele que tinha achado a secretária temporária muito gostosa. D. Neusa não chegou a voltar das férias. Foi demitida por carta.
Lembrou outra vez da advogada do filme: "Sexual harassment is about power." Fernanda tinha todo o poder.

5 comentários:

M. disse...

Valeu a espera! Adorei na narrativa, me prendeu até a última linha. Não via a hora de saber se o VP ia ou não resistir aos encantos da subalterna! Eu já tinha pensando em contar uma história sobre chefe x funcionária, entretanto, sob a perspectiva da funcionária. De como ela se sentia tendo um poder, mesmo que sexual, sobre aquele que a oprimia em todos os outros aspectos. Quem sabe um dia ainda escrevo? Beijos.

Andréa N. disse...

Arrasou!! Ah, o poder...

Um abraoc e uma excelente semana pra ti. E boa sorte ao nosso amado pais.

Andréa N. disse...

Caramba, esse texto arrepia, e ja eh a segunda vez que eu leio.

disse...

Posso escolher o nome do seu livro?
"O Doce Veneno do Corpão"

Bjo!

disse...

Para ficar mais fiel, você poderia fazer um regime (ou greve de fome):
"O Doce Veneno do Ex-Corpão"
hehe