sexta-feira, 6 de outubro de 2006

PERSONAS GRATAS E NON GRATAS

Se você perguntar pro pessoal lá de casa quem sou eu, eles devem dizer que sou um cara mal-humorado, ensimesmado, que gosta de se isolar e ficar quieto lendo ou escrevendo. Que falo pouco e não me relaciono com eles. E que tenho uma tendência à depressão.
Se você perguntar a mesma coisa pra qualquer um de meus clientes, vai ouvir que sou uma pessoa engraçadíssima, que não pára de falar abobrinha e que é uma terapia ir lá no meu consultório porque só se dá risada das coisas que eu falo. E que sou uma pessoa muito positiva e "alto astral".
Se você perguntar isso pra muitos de meus amigos mais próximos - aqueles que me conhecem bem - eles vão dizer que eu sou um cara muito interessante de quem gostam muito, mas que vivo vendo o lado negativo das coisas e que sempre acho que tudo vai dar errado.
Se você consultar minha mulher, ela provavelmente vai dizer que sou uma pessoa muito acomodada, que empurro tudo com a barriga, pouco empreendedor e pouco objetivo.
Já meu filho menor com certeza vai dizer que sou muito estressado. Aliás, assim que aprendeu a falar já começou a dizer isso. Era até bonitinho ver aquele molequinho de dois anos e pouco me perguntar: "Cê tá istessado?" Se eu estivesse, deixava de ficar na hora.
Meu filho mais velho talvez não diga muita coisa, porquê o que mais deve ter sentido foi a minha ausência, por mais que eu tivesse tentado ser presente.
Minha secretária, vai dizer que eu sou legal (se não fosse, ela não aguentaria trabalhar pra mim por dezoito anos), mas que sou muito mimado e tenho cinco minutos onde bato portas e jogo coisas.
Pessoas que me conhecem há pouco tempo, vão lhe dizer que eu sou uma pessoa brava, carrancuda, que inspira um certo temor.
Agora, se você fizer essa pergunta pra mim, não obterá resposta nenhuma. Não tenho resposta. Não tenho nada a declarar porque tudo o que disser pode ser usado contra mim. Não, não é crise de identidade. Essas, já as tive várias: aos oito anos, aos quinze, aos vinte e oito, aos trinta e dois, pulei a dos quarenta e tive aos quarenta e seis. Agora, aos cinquenta e dois, não tenho crise de identidade; tenho crise de identidades. É isso mesmo. Descobri que, além de não conseguir responder à mais fundamental das questões filosóficas, "Quem sou eu?", tenho que responder também a outra questão, "Quantos sou eu?" . Depois de descobrir este número, preciso achar resposta à primeira questão, pra cada uma dessas identidades. É mole?
Bem, não é tão desesperador assim. Na verdade, no momento em que você descobre esse monte de gente dentro de você a coisa fica mais simples. Aí você simplesmente deixa de se preocupar com isso e aceita o fato de que todos esses caras são você e você é todos eles. Você vira uma turminha o que pode ser bem legal, até. O problema é que você não decide quem vai junto ao cinema, quem te acompanha no trabalho, quem vai estar a fim de aparecer naquele jantar. Você perde um pouco o controle sobre isso, mas dá um certo, digamos, movimento à mesmice.
De resto, consolo-me com as palavras do poema de Mario de Andrade...

Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cincoenta,
Mas um dia afinal eu toparei comigo...

6 comentários:

Andréa N. disse...

Paulo, que excelente post! No comecinho vc me lembrou meu pai. Ele eh o carrancudo em casa e o palhaco na rua. Isso me incomodava quando eu era mais nova, hoje nao mais. Entendi que somos (sim, todos nos) varios, como vc disse, e nao da pra mudar isso. Especialmente se vc for de gemeos, como eu, he, mas pode sim ser divertido, como tambem as vezes atrapalha. Quando, por exemplo, eu preciso da Andrea bem-humorada numa visita ao ginecologista e nao consigo encontra-la de jeito nenhum. Soh aparece a Dea depre achando que eh uma merda ter nascido mulher. E assim a gente vive a vida, meu amigo. Sabe o que eu aprendi observando o meu pai? Que as virtudes dele estavam nos atos e nao nas palavras. Ele era super ausente porque estava provendo pra gente, trabalhando duro e garantindo uma educacao decente. Tenho certeza de que os teus filhos enxergam em vc o que realmente interessa nessa vida. Agora, posso dizer o que eu enxergo? Um cara interessantissimo, inteligente, equilibrado, bom papo e gentil. Daqueles que sao uma delicia ter como amigos! Abracos.

Anônimo disse...

Caríssimo amigo. Li seu texto. Lindo, adorável. Após algum tempo de reflexão, resolvi enviar este comentário que espero, seja recebido carinhosamente.
Se pedir a tua mulher uma definição de como vc é, provavelmente ela dirá mesmo que é acomodado, que empurra boa parte da vida com a barriga. Só cometeu o enganou de achar que ela te considera pouco objetivo. Isto seguramente não é atributo seu. Mas ela entende bem, faz parte da fantasia, da criação.
O detalhe importante e que vc não sabe, é que estas observações viriam por último e ela até confessa, diria com bem pouco pesar. Afinal, como poderia um homem, sensível,inteligente, educado, livre de preconceitos, com um enorme caráter e ainda por cima com uma gigante alma feminina não ter defeitos. Não seria possível pedir tanto. É aquela historinha do pacote fechado,lembra? Ela poderia perfeitamente ter se apaixonado por um grande empreendedor, daqueles que resolve tudo ontem, não empurra nada, não tem barriga e ainda por cima vive rindo. Uma anta!! Vai saber porque isto não aconteceu, né. Talvez por que a vida seja mesmo muito engraçada, irônica e ela (tua mulher) muito exigente, inteligente. Imagine só como seria, vc, um homem tão especial, cheio de virtudes e qualidades,um super profissional, bom pai,um cara que odeia cobrança, para si e para os outros, e fiel (pelo menos é o que vive dizendo). Este é simplesmente o homem perfeito, ideal, só faltava de lambuja ser ainda um grande empreendedor, resolvendo tudo rápido com objetividade e maestriada e de quebra, ainda por cima, sem barriga ( com aquele tanquinho cheio de músculos...) Hum!! só ia ficar faltando mesmo ser frequente e bom de cama, mas convenhamos, isto, ninguem merece....
Bjs

Edu disse...

Caro Paulo,

Li os comments da Déa e fiquei pasmado. Quantos elogios. rsss. Tá bem, uma pontinha de inveja, eu admito. Adoro elogios, para mim e especialmente aos outros. Me orgulho pela admiração alheia, pelo sucesso que as pessoas que me cercam conseguem fazer. Com textos tão interessantes e bem escritos, vc tem o direito de ser ranzinza. hehe Embora eu acredite que isso signifique muito pouco na sua personalidade (que conheço bem pouco). Enfim, quem não se sentiu a verdadeira Cybill ? Com todas as personalidades, estados de humor, egos e super egos amaldiçoantes... C'est la vie. Bem vindo ao clube. =] Um abração. Edu

Paulo de Tarso disse...

Edu
É bom saber que não sou o único nesse clube de "loucos" com múltiplas personas. "Se sou muito louco... mais louco é quem me diz... e não é feliz". Quanto à pontinha de inveja, eu tenho uma pontona de inveja de você, por ser amigo pessoal de uma personalidade tão rica e interessante quanto a Déa. Um dia, quem sabe, todos nós estaremos juntos, quero dizer, pessoalmente também. Abração e muito obrigado pela visita. Tenho ido lá no Arerê sempre. Escreve mais, Ok?

A Coisa... disse...

Voce tem todos esses e mais alguns dentro de voce! Ou melhor, em voce cabem muitos sentimentos, pensamentos, humores, amores, horrores... Voce é tudo isso e já se achou. Não tem o que buscar e sim o que mostrar. Variar as demonstrações, trocar as performances, para todos te conhecerem melhor! Se é que é o que voce quer! Mas de qualquer forma, acho bom não ser um modelito fechado, ter todas essas identidades. Já pensou que chato ser uma coisa só? Voce tem muitos dons e é um ser iluminado!! Se bem que... as vezes é bem chatinho...

Paulo de Tarso disse...

Também te adoro, Coisa!