domingo, 13 de agosto de 2006

AINDA SOBRE PAIS E FILHOS

Recebi esta carta do meu filho menor. Pelas hipérboles ("do tamanho do universo") e pelos clichês ("meu herói"), quero crer que o texto não é dele. Com certeza, foi ditado pela professora, na hora de fazer a lembrancinha. Não que eu não mereça tamanho amor e consideração. Claro que mereço. Mas, tenho certeza de que, se já dominasse a linguagem escrita, Theo teria muito mais coisas a dizer; não só de admiração.
Isto me fez lembrar uma outra carta de um outro filho para seu pai. Só que esse filho é um dos maiores escritores do planeta. Chama-se Franz Kafka. Seu "CARTA AO PAI", foi escrito em 1919, quatro anos antes de morrer. É um amargo acerto de contas. Alguns trechos:

- "Querido Pai: você me perguntou recentemente por que eu afirmo ter medo de você. Como de costume, não soube responder, em parte porque na motivação desse medo intervêm tantos pormenores, que mal poderia reuni-los numa fala." *

- "...justo como pai você era forte demais para mim..." *

- "Você só pode tratar um filho como você mesmo foi criado, com energia, ruído e cólera, e neste caso isso lhe parecia, além do mais muito adequado, porque queria fazer de mim um jovem forte e corajoso." *

- "Não quero dizer que isso não estava certo...mas quero caracterizar...seus recursos educativos e os efeitos que eles tiveram sobre mim. Sem dúvida, a partir daquele momento eu me tornei obediente, mas fiquei internamente lesado." *

- "...esse sentimento de nulidade que...me domina...deriva da sua influência."*

- "Para mim, sempre foi incompreensível sua total falta de sensibilidade em relação à dor e à vergonha que podia me infligir com palavras e juízos; era como se você não tivesse a menor noção da sua força." *

Bem, Herr Herrmann Kafka devia mesmo ser um déspota e Kakfa devia sentir-se o próprio Gregor Samsa, depois da metamorfose.
Acredito que meus filhos não tenham essa imagem de mim. Se o texto do Theo é pouco espontâneo, a vivacidade, a escolha das muitas cores fortes e a energia do seu desenho dizem muito mais do seu sentimento pelo pai.

Mas, Freuds e Édipos à parte, lá no fundo, bem no fundo mesmo, todos temos nosso lado Kafka (Herrmann e Franz), cinzento e opressivo. Ainda bem que o amor predomina, bem colorido, cheio de arvorezinhas azuis, soizinhos cor de telha, coraçõezinhos amarelos, carrinhos vermelhos e bonequinhos sorridentes bem verdinhos.

* Ed. Brasiliense, 2a. edição, Trad. Modesto Carone

4 comentários:

Andréa N. disse...

Que post lindo, Paulo. Feliz Dia dos Pais! Aproveite bastante o dia com seus filhos, já que eles um dia crescem e somem. Pelo menos foi isso que eu fiz... Saudade do meu pai. Vou ligar pra ele no Brasil daqui há pouco.
Abraço.

Fê disse...

Muito legal
Bjo.

PS: profundo meu comentário, hein? Mas, se aceitasse comando HTML, seria colorido e com arvorezinhas.

M. disse...

Adorei seus textos do Dia dos Pais! Os dois. Seus filhos, se lerem um dia, vão ficar orgulhosos do pai-escritor.

Paulo de Tarso disse...

Aos que vieram, muito obrigado...